Martha Medeiros: "A adoção do algodão rastreável tem influenciado as decisões de compra dos consumidores", diz CEO. (Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 29 de março de 2025 às 08h01.
Nem só de renda vive a Martha Medeiros, marca de vestuário brasileira que ficou conhecida por peças feitas à mão, principalmente com renda. O negócio, hoje gerido por Gélio Medeiros, filho da fundadora e que cresceu 30% nos últimos três anos, projeta um crescimento de 25% só neste ano. A aposta? O algodão rastreável.
Sem abrir os números oficiais do faturamento, o CEO afirma que o momento não poderia ser mais propício. O algodão brasileiro ganhou notoriedade nas exportações na safra 2023/24, superando os Estados Unidos nos embarques globais da fibra. Na temporada passada, o Brasil produziu 3,7 milhões de toneladas, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).
"A adoção do algodão rastreável tem influenciado as decisões de compra dos consumidores. Quando conseguimos unir essa excelência com um diferencial como a rastreabilidade, isso impacta diretamente na escolha dele. Ele não está apenas buscando um item de alta qualidade, mas também um compromisso com a sustentabilidade e a transparência", diz o executivo.
O grande diferencial do uso do algodão rastreável está no que ele oferece ao consumidor que, segundo Medeiros, busca entender de onde vêm as peças de roupa. A fibra rastreável permite que o consumidor conheça todas as etapas do processo de produção — do plantio na fazenda à transformação em fio na fábrica, até a chegada à loja.
"Com esse sistema, acompanhamos cada etapa da produção — do plantio à confecção — seguindo os mais altos padrões de qualidade e sustentabilidade. Todos os elos da cadeia produtiva têm recebido essa mudança de forma muito positiva", afirma Medeiros.
Desde a última coleção, a Martha Medeiros tem investido em reforçar o papel do algodão em seu processo produtivo. O ponto central foi destacar o algodão plantado no campo Martha Medeiros, localizado na Fazenda Progresso, no Piauí — a unidade ocupa 140 mil hectares e é responsável por toda a fibra utilizada pela marca. Todo o catálogo, inclusive, foi fotografado nas plantações de algodão, reforçando a conexão entre o produto final e sua origem.
A iniciativa da marca conta com o apoio da Abrapa e do movimento Sou de Algodão — iniciativa da entidade e do setor produtivo para incentivar o uso do algodão brasileiro — em um momento em que as fibras sintéticas, como o poliéster, ganham espaço por seu valor mais competitivo.
"O movimento une todos os agentes da cadeia produtiva do algodão e da indústria têxtil que produzem peças com, no mínimo, 70% de algodão na composição. Aproximar o algodão do consumidor final é a grande missão do movimento e isso se faz por meio de mais de 1.700 marcas parceiras que usam a fibra como matéria-prima e a transformam nos mais diversos produtos", diz Silmara Ferraresi, diretora de Relações Institucionais da Abrapa.
Segundo a entidade, com expectativa de crescimento de área plantada estimada em 10,3% — 2,145,5 milhões de hectares — em 2024/2025, a safra brasileira de algodão deve chegar a 3,95 milhões de toneladas do produto beneficiado (pluma).
Além do incremento de área e produção, o setor pode registrar um aumento de até 20 mil toneladas no consumo da indústria nacional, que no ano passado fechou em 750 mil toneladas. O Brasil também tem ampliado seu mercado externo, exportando para além da China, com destaque para países como Egito, Paquistão e Índia.
A iniciativa do algodão rastreável está sendo implementada de forma gradual. Inicialmente, será aplicada no jeans e, em seguida, expandida para a produção das rendas. Esse processo é mais complexo, diz o CEO da marca, já que a produção das rendas é descentralizada, com as rendeiras localizadas em sítios distintos — o que demanda um cuidado extra na coordenação.
“Para nós, essa transição não é tão desafiadora, pois não trabalhamos com produção em larga escala — somos uma marca de nicho, com peças exclusivas e produção mais controlada. No entanto, olhando para o mercado todo, o principal desafio é garantir que, ao longo de toda a cadeia produtiva, não haja mistura de algodão não certificado, mantendo a pureza e integridade do material”, afirma Medeiros.
Além do algodão, há o projeto com as mulheres rendeiras, que valoriza o trabalho artesanal. A iniciativa, que existe desde o início da marca, treina e gera renda para 250 mulheres atualmente e, segundo ele, já mudou a vida de inúmeras delas.
“Muitas delas conseguiram, por exemplo, pagar a faculdade dos filhos e garantir uma vida mais digna para suas famílias. No campo social, o projeto contribuiu para a reforma de duas escolas, a construção de 16 casas para a população local, 19 poços e a distribuição de mais de 1 mil óculos, além de programas médicos que beneficiam essas comunidades”, diz.