EXAME Agro

Da soja ao café: tarifas de Trump abrem brecha para o agronegócio brasileiro aumentar exportações

Imposto de 10% sobre produtos do Brasil é menor que os 54% aplicados à China e pode favorecer grãos e carnes no comércio asiático, dizem analistas

Close up of golden corn grains in the tractor. In the blurry background is a machine separating grains. Agriculture and harvest. (Freepik)

Close up of golden corn grains in the tractor. In the blurry background is a machine separating grains. Agriculture and harvest. (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 3 de abril de 2025 às 15h52.

Última atualização em 3 de abril de 2025 às 16h15.

Enquanto parte do agronegócio brasileiro avalia os impactos do tarifaço anunciado nesta quarta-feira, 2, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, analistas consultados pela EXAME calculam que a medida oferece oportunidades para o setor.

A expectativa do agro era de que o presidente americano estabelecesse uma alíquota elevada para os produtos oriundos do Brasil, mas a tarifa ficou em 10%, valor considerado razoável por empresários e autoridades do setor, como o presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), Pedro Lupion (PP).

Em relatório divulgado nesta quinta-feira, 3, a Datagro Consultoria afirmou que, ao impor a taxação de 10%, Trump referendou a tese de que o Brasil não representa um grande problema para o comércio americano.

“Há até de reconhecer a oportunidade que o Brasil possa enxergar ao garantir competitividade de seus produtos agrícolas frente aos países que serão proporcionalmente mais taxados, tal como uma maior abertura para o mercado chinês e europeu à soja brasileira, ou à maior demanda de café pelos EUA”, diz o documento.

No comunicado emitido pela gestão Trump, os Estados Unidos deixaram claro que vão aplicar tarifas mais altas a países que possuem grandes déficits comerciais com o país — as taxas vão durar por tempo indeterminado.

Dados do governo federal mostram que as exportações brasileiras para os Estados Unidos totalizaram US$ 40,3 bilhões em 2024, enquanto as importações foram superiores, avaliadas em US$ 40,6 bilhões. Logo, a relação comercial entre os dois países é deficitária para o Brasil, ou seja, o país compra mais do que exporta.

A situação da China ilustra bem o cenário mencionado por Trump. O país asiático, que já era alvo de uma tarifa geral de 20% sobre produtos exportados aos Estados Unidos, agora enfrentará uma taxa de 54%.

Um porta-voz do Ministério do Comércio chinês declarou nesta quinta-feira que o país se opõe “firmemente” às tarifas anunciadas pelos EUA e “não hesitará em aplicar contramedidas para proteger seus direitos e interesses”.

“Se essas retaliações de fato acontecerem, o Brasil pode enxergar oportunidades comerciais com países como China, Vietnã e outras nações do Leste Asiático. Essas regiões podem aumentar suas compras de produtos brasileiros como alternativa aos EUA, principalmente de grãos, soja e carnes”, afirma José Luiz Pimenta Júnior, diretor de Comércio Internacional e Relações Governamentais da BMJ Associados.

O café, commodity na qual Brasil e Vietnã ocupam a primeira e a segunda posição, respectivamente, como maiores produtores globais, é um exemplo, diz Pimenta. A nova taxa para importação de produtos do Vietnã, por exemplo, é de 46%.

“O setor cafeeiro deve estar atento não apenas a eventuais oportunidades no mercado internacional, mas também às movimentações do governo dos Estados Unidos. Há, sim, oportunidades no curto prazo para o agronegócio brasileiro”, afirma o diretor.

Em 2024, os EUA foram o principal destino do café brasileiro, com 8,131 milhões de sacas exportadas — um crescimento de 34% em relação a 2023 —, o que representou 16,1% de todas as exportações do grão nacional.

Etanol brasileiro para os EUA

Segundo relatório da Datagro, a situação do etanol brasileiro é um pouco mais complexa. O documento da consultoria aponta que a tarifa de 10% imposta por Donald Trump sobre o biocombustível deixa dúvidas quanto à sua natureza: se seria uma alíquota mínima ou cumulativa.

Até então, os Estados Unidos aplicavam uma tarifa de 2,5% sobre o etanol brasileiro. Com a nova taxação, surge a incerteza se a alíquota final será de 10% ou se será somada à anterior, elevando-a para 12,5%. O ponto central, segundo o documento, é a postura do presidente americano, que “fechou definitivamente a importação do etanol, cujo volume foi de 334 milhões de litros”.

"Os 330 milhões de litros exportados para os EUA em 2024 representaram 0,9% da produção brasileira na safra 2024/2025." Segundo a Datagro, esse volume não configura uma grande perda de mercado para o etanol brasileiro.

Para a safra 2025/2026, a produção de cana-de-açúcar no Brasil está estimada em 42,3 milhões de toneladas, ligeiramente acima das projeções anteriores. Se o clima não interferir, os preços do etanol devem se manter estáveis.

Nesse cenário, as usinas tendem a priorizar a produção de açúcar, o que reduz a oferta de etanol no mercado interno. Assim, qualquer volume não exportado deve ser rapidamente absorvido pelo consumo doméstico, diz a consultoria.

Segundo José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), uma possível retaliação do governo brasileiro pode ser prejudicial, sobretudo do ponto de vista econômico.

Na noite desta quarta-feira, o Congresso aprovou a Lei de Reciprocidade Econômica, determina critérios para a reciprocidade em caso de barreiras comerciais a produtos brasileiros. A intenção do texto é contornar possíveis sobretaxas de outros países, em especial para produtos do setor do agronegócio.

“O maior protecionismo conduzirá a um dólar mais forte, de um lado, e a moedas de mercados emergentes, como a do Brasil, mais desvalorizadas, de outro. Portanto, o cenário será de maior dificuldade para o ajuste fiscal que precisamos e, por consequência, continuaremos com taxas de juro mais elevadas. Juros mais altos inibem os investimentos”, afirma o pesquisador.

Para ele, o momento é oportuno para o Brasil avaliar o mercado e repensar se a redução das tarifas impostas aos Estados Unidos por meio de negociações seria uma alternativa viável.

“Caso isso ocorresse, haveria maior competição das empresas americanas no mercado nacional, o que estimularia a concorrência, a inovação e a eficiência de nossas empresas. O consumidor se beneficiaria por pagar um preço mais baixo pelo combustível. Este é um jogo de soma positiva, em que todos os lados ganham”, conclui.

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