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Etanol do Brasil não pode virar moeda de troca para negociar tarifas de Trump, diz líder do setor

José Guilherme Nogueira, da Orplana, defende a manutenção de acordos e cita o açúcar como exemplo

Publicado em 1 de abril de 2025 às 18h42.

Última atualização em 1 de abril de 2025 às 18h56.

O etanol brasileiro se tornou um dos principais pontos da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos. Em fevereiro, no anúncio inicial sobre tarifas recíprocas, a Casa Branca citou o combustível brasileiro como um dos exemplos de distorção a ser combatida.

Agora, horas antes de as tarifas recíprocas serem implantadas de fato, nesta quarta-feira, 2, o setor segue atento às negociações, para evitar ser alvo de taxas ou concessões que tragam prejuízos.

"O setor não quer ser a moeda de troca para fazer qualquer tipo de negociação. Várias entidades estão falando sobre isso, de que nenhum setor do agronegócio seja colocado como moeda de troca", disse José Guilherme Nogueira, presidente da Orplana, entidade que representa 35 empresas produtoras de cana-de-açúcar, em conversa com a EXAME.

A Orplana tem buscado negociar as reações às tarifas de Trump em conjunto com o governo brasileiro e entidades como Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Instituto Pensar Agricultura (IPA) e Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp).

"A gente sabe que os negociadores, ao negociarem tarifas de importação, podem fazer alguma coisa que pode impactar algum setor. É importante proteger os acordos que já existem", disse Nogueira.

Perguntado sobre as possibilidades de ações que o setor poderia fazer para tentar ofertar concessões a Trump, ele citou o caso do açúcar. "Na negociação para conter a inflação, nosso setor mostrou que não teria problemas em ampliar as importações de açúcar sem tarifas", disse ele. O tema não teria entrado nas tratativas de reação às tarifas atuais de Trump.

Por que Trump quer taxar o etanol

Apesar de ser citado por Trump, o etanol não está entre os itens mais exportados do Brasil para os EUA, e as exportações representam uma fatia ínfima da produção total. O país fabrica cerca de 38 bilhões de litros por ano e vende para os EUA algo entre 400 e 500 milhões de litros, cerca de 1% do total.

A lista de maiores exportações brasileiras para os Estados Unidos é liderada por itens industriais e de mineração, como petróleo, produtos de ferro ou aço, além de aeronaves e peças. Assim, há um temor entre alguns empresários que o Brasil faça concessões em relação ao etanol para preservar outros segmentos que movimentam mais dinheiro.

Em 2024, houve a importação de US$ 200 milhões em etanol brasileiro pelos EUA, enquanto o Brasil importou apenas US$ 52 milhões em etanol dos EUA, segundo dados divulgados pelo governo americano.

O combustível se tornou um ponto sensível para Trump, pois muitos produtores rurais, que integram sua base de apoio no país, criticam a importação do combustível brasileiro. Eles acusam, há anos, o Brasil de agir de forma desleal.

"Há quase uma década, temos gasto tempo e recursos preciosos combatendo um regime tarifário injusto imposto pelo governo do Brasil sobre as importações de etanol dos EUA", disse a Renewable Fuels Association (RFA), em comunicado.

A entidade diz que os dois países tiveram uma relação comercial pacífica e cooperativa por vários anos, com um país suprindo o outro em momentos de escassez, mas que a situação mudou em 2017.

"O Brasil instituiu um esquema de cotas tarifárias e, posteriormente, adotou uma tarifa em 2020. A tarifa brasileira sobre o etanol dos EUA está em 18% e eliminou praticamente o acesso ao mercado para os produtores americanos de etanol", diz a RFA. Do outro lado, os EUA cobram tarifas de 2,5% sobre o etanol brasileiro.

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