EXAME Agro

Tarifas de Trump: setor de cana vive horas de tensão antes do anúncio das medidas

Setor agropecuário espera que a Lei da Reciprocidade Econômica seja a solução para que o presidente Donald Trump negocie de forma mais equitativa com o Brasil

Etanol brasileiro: "tarifaço" do presidente norte-americano pode gerar ainda mais incertezas para o agronegócio (Monty Rakusen/Getty Images)

Etanol brasileiro: "tarifaço" do presidente norte-americano pode gerar ainda mais incertezas para o agronegócio (Monty Rakusen/Getty Images)

Publicado em 2 de abril de 2025 às 14h03.

Última atualização em 2 de abril de 2025 às 14h16.

Brasília* O setor de cana-de-açúcar está apreensivo com as possíveis tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o etanol brasileiro. Durante o Cana Summit 2025, realizado em Brasília nesta quarta-feira, 2, empresários, políticos e analistas disseram à EXAME que o "tarifaço" do presidente norte-americano pode gerar ainda mais incertezas para o agronegócio brasileiro.

Para o professor da FGV Agro e ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, o cenário atual é de incerteza, com ações de Trump afetando potencialmente as cadeias globais de produção.

“Esse desmantelamento de uma geopolítica negociada ao longo de tantos anos é importante. Se outros países, como a China e mercados asiáticos, decidirem adotar tarifas semelhantes para compensar a medida americana, poderemos enfrentar sérios problemas”, afirmou Rodrigues.

Rodrigues também alertou que o governo brasileiro possui margens para negociar com os EUA, mas, dependendo das ações de Trump, o impacto negativo sobre o setor de etanol pode ser significativo.

“O pior cenário seria se os Estados Unidos forçassem a redução das nossas tarifas para resolver o problema, o que abriria espaço para uma possível 'invasão' do etanol americano, especialmente no Nordeste, onde isso teria um impacto muito negativo", disse o ex-ministro.

Segundo a consultoria Datagro, as importações brasileiras de etanol dos EUA caíram para 247 milhões de litros por ano desde 2021, enquanto as exportações brasileiras para os EUA ficaram em 309 milhões de litros anuais. No Brasil, o etanol de cana representa 78% da oferta total de etanol, enquanto o etanol de milho corresponde a 22%.

Com a expansão da produção americana e preços mais competitivos, os EUA aumentaram suas exportações globais de etanol em 34,8% em 2024, enquanto o Brasil viu uma redução de 25% nas suas vendas externas — o cenário foi impactado pelos altos custos do etanol de cana e pela maior proporção de cana destinada à produção de açúcar, alterando o mix de produção nas usinas.

Para o presidente da Datagro, Plínio Nastari, a solução passa por uma negociação bilateral que considere a necessidade de conciliação entre os regimes de importação de açúcar nos EUA e de etanol no Brasil. Ele destacou que os EUA aplicam uma tarifa de aproximadamente 100% sobre o açúcar, o que torna o mercado norte-americano altamente protegido.

"A intenção de ambos os países é conduzir uma negociação que envolva tanto o açúcar quanto o etanol. Uma possível solução seria estabelecer tarifas recíprocas. Outra alternativa seria uma negociação que envolvesse cotas equivalentes de açúcar e etanol livres de impostos, afirma o presidente da Datagro", diz Nastari.

Uma comitiva composta por 14 empresários do setor sucroalcooleiro disse à EXAME que, caso Trump opte por um aumento tarifário recíproco, as consequências para os negócios podem ser catastróficas, já que o cenário não é positivo para o agricultor.

“A margem do produtor já está apertada. Houve aumento nos insumos, nos custos e na taxa de juros. Não temos mais para onde correr”, afirmou um produtor de cana de Novo Horizonte, no interior de São Paulo. Segundo ele, o eventual "tarifaço" do presidente norte-americano tende a agravar ainda mais esse cenário, que já está difícil.

Lei da reciprocidade

O setor agropecuário espera que o Projeto de Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado nesta terça-feira, 1º, seja a solução para que o presidente Donald Trump negocie de forma mais equitativa com o Brasil.

Originalmente, o PL da Reciprocidade tratava de equiparar exigências de controle ambiental, mas agora também prevê a criação de barreiras econômicas para países ou blocos que afetem a competitividade brasileira no mercado internacional.

Para o presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (PP), com o pacote de tarifas de Trump previsto para ser anunciado nesta quarta-feira, às 17h (horário de Brasília), o Congresso precisa agir rapidamente para votar o PL.

"Conversei com alguns líderes e queremos votar esse PL ainda nesta semana. Nossos concorrentes internacionais, os grandes players do comércio global, têm leis para defender seus interesses, e o Brasil não tem. Precisamos disso, e é importante que a votação seja célere", afirmou Lupion.

O presidente da Câmara dos Deputados, deputado Hugo Motta (Republicanos/PB), informou que trabalhará junto ao Colégio de Líderes para pautar o tema ainda esta semana. Alguns parlamentares informaram à EXAME que o PL da Reciprocidade deve ser votado já na próxima quarta-feira.

O Artigo 1º do projeto de lei estabelece critérios para respostas a ações, políticas ou práticas unilaterais de outros países, ou blocos econômicos que “impactem negativamente a competitividade internacional do Brasil”.

Se aprovado, o projeto de lei será válido para países ou blocos que "interfiram nas escolhas legítimas e soberanas do Brasil". O deputado Arnaldo Jardim, vice-presidente da FPA, será o relator do PL.

*O repórter viajou a convite da Orplana

Acompanhe tudo sobre:Cana de açúcarEtanolDonald TrumpTarifasEstados Unidos (EUA)

Mais de EXAME Agro

É menos grave do que esperávamos, diz presidente da bancada ruralista sobre tarifaço de Trump

Tarifas de Trump: setores de carne, suco de laranja e cana avaliarão decreto antes de responder

Tarifas de Trump vão mudar preço do etanol no Brasil? Entenda os impactos

Etanol do Brasil não pode virar moeda de troca para negociar tarifas de Trump, diz líder do setor