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Com 300 mil anos de idade, cérebro humano pode ser afetado pelo uso de IA nas empresas

Especialista aponta impactos cognitivos e comportamentais que podem transformar a forma de pensar nas empresas e nas relações sociais

Inteligência artificial e seus efeitos no cérebro humano (Laurence Dutton/Getty Images)

Inteligência artificial e seus efeitos no cérebro humano (Laurence Dutton/Getty Images)

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Publicado em 3 de abril de 2025 às 07h00.

Por Andre Cruz, fundador e CEO da Neura*

O mundo está cada vez mais complexo e incerto. A inteligência artificial se popularizou e passou a ser assunto de discussão de conselhos e executivos C-level. A Era da IA já é uma realidade - e nem começou agora. Está simplesmente se acelerando. Estamos na Marolinha e tem um Tsunami vindo aí.

A IA está impactando o cérebro humano de diversas formas, e, nesse meio, a neurociência ajuda a entender essas mudanças no nível cognitivo e no nível comportamental. E não há como não relacionar tudo com a cultura organizacional

É preciso ter claro que essa mudança só pode ser realizada se as empresas estiverem realmente dispostas a abraçá-las em sua estrutura organizacional e, principalmente, na mentalidade corporativa. Pessoas, pessoas, pessoas.

Nós humanos somos seres conscientes, subjetivos e empáticos. Temos inteligência emocional, criatividade e a capacidade do pensamento abstrato. Já a inteligência artificial opera com base de dados, combinações, probabilidade e estatística.

O impacto da IA no cérebro humano: uma visão neurocientífica

A IA está transformando profundamente a forma como o cérebro humano opera. Ela está aprimorando a eficiência cognitiva, mas também reduzindo a capacidade de atenção e pensamento crítico. 

No futuro, poderemos ver avanços significativos na integração entre humanos e IA, mas também um grande espaço para riscos, como a manipulação cognitiva e a perda da identidade individual.

A neurociência é cada vez mais crucial para a compreensão dessas mudanças pois ajuda em muito na análise dos efeitos da interação constante com a IA na plasticidade cerebral (neuroplasticidade, super indico o livro "O cérebro que se transforma" de Norman Doidge), na atenção, no sistema de recompensa e na tomada de decisão.

Possíveis impactos atuais da IA no cérebro humano pela neurociência:

Pontos positivos:

  • Aprimoramento da plasticidade cerebral: a interação com IA acelera a adaptação neural e melhora a capacidade de aprendizado.
  • Melhoria da tomada de decisão: as tecnologias fornecem análises de dados avançadas, ajudando no raciocínio crítico e na resolução de problemas.
  • Personalização e otimização do aprendizado: o uso da IA pode ajudar a otimizar o ensino de acordo com o perfil cognitivo do usuário.
  • Criatividade: a inteligência artificial pode inspirar novas ideias ao gerar insights ou mesmo sugerir novas soluções inovadoras.
  • Eficiência cognitiva: com a automatização de tarefas repetitivas, liberamos recursos mentais para atividades mais estratégicas e criativas.
  • Simulações emocionais do futuro: a construção de representações mentais de experiências futuras positivas ajuda os indivíduos a gerenciar a ansiedade e melhorar a regulação emocional.

Pontos negativos:

  • Déficit de atenção e superficialidade cognitiva: o excesso de informações e conteúdos curtos acabam prejudicando o foco e até mesmo a profundidade do pensamento.
  • Dependência de respostas prontas: pode ser que o uso excessivo da IA ajude a reduzir a capacidade de pensamento crítico e, consequentemente, a resolução de problemas.
  • Sistema de recompensa sendo reconfigurado: a interação constante com algoritmos, que hoje são personalizados, ajuda a reforçar alguns padrões imediatistas e até a diminuir a paciência das pessoas.
  • Memória de longo prazo reduzida: com a extrema facilidade de acesso à informação, diminuímos a necessidade de retenção e processamento profundo dos dados.
  • Adaptação emocional: substituir a interação humana por IA pode afetar e muito a empatia e habilidades sociais. Creio que aqui é o que mais falamos hoje em dia da Geração Z. O ser humano, desde os seus primórdios, sobreviveu graças ao grupo e ao senso de pertencimento. Substituir a interação humana por IA pode afetar e muito a empatia e habilidades sociais.
  • Vício em tecnologia e padrões de sono perturbados.
  • Adversidades no início da vida: uma geração que está tendo dificuldade em lidar com o "não" e com adversidades.

Possíveis impactos futuros da IA no cérebro humano, de acordo com a neurociência:

Possíveis impactos positivos:

  • Integração entre IA e neurociência: tecnologias baseadas em IA, como interfaces cérebro-máquina, podem ampliar a capacidade cerebral e criar novas formas de interação entre humanos e máquinas.
  • Expansão da inteligência coletiva: com a IA facilitando colaborações globais, espera-se um aumento na capacidade de resolução de problemas complexos.
  • Aprimoramento do autocontrole e da tomada de decisão: as inovações poderão auxiliar indivíduos a regularem suas emoções e otimizarem a tomada de decisões.
  • Avanços no tratamento de doenças neurológicas: a IA permitirá diagnósticos mais precisos e terapias personalizadas para doenças como Alzheimer e Parkinson.
  • Ampliação da memória e cognição: sistemas de assistência cognitiva integrados podem atuar como "memórias externas", potencializando a retenção e organização do conhecimento.
  • Avanços na neurociência: a integração da análise de dados em larga escala e de modelos estatísticos avançados pode levar a uma melhor compreensão e tratamento de condições relacionadas ao cérebro, melhorando a saúde cognitiva e emocional.
  • Cultivo de emoções positivas: a pesquisa contínua sobre os correlatos neurofisiológicos das emoções positivas pode levar a novas estratégias para cultivar a felicidade e o bem-estar, possivelmente por meio de intervenções e terapias personalizadas.

Possíveis impactos negativos:

  • Erosão da identidade cognitiva: a dependência excessiva do digital pode reduzir a individualidade.
  • Desconexão com a realidade: tecnologias como IA imersiva e realidades simuladas podem distanciar os indivíduos do mundo real, afetando as interações sociais.
  • Manipulação cognitiva: contribuindo para tornar os consumidores mais suscetíveis a influências externas e decisões inconscientes.
  • Diminuição da resiliência mental: a automação de processos pode criar uma geração menos preparada para enfrentar desafios e incertezas sem apoio tecnológico.
  • Desigualdade cognitiva: O acesso desigual à IA pode acentuar disparidades entre diferentes grupos sociais, criando uma divisão no desenvolvimento cognitivo e nas oportunidades.
  • Aumento do tempo de tela: à medida que a tecnologia digital continua a evoluir, o potencial para o aumento do tempo de tela e seus impactos negativos associados sobre a atenção, habilidades sociais e a saúde mental pode aumentar, exigindo mais pesquisas e estratégias de intervenção.
  • Complexidade da experiência emocional: o debate em andamento entre as perspectivas da neurociência afetiva e cognitiva sobre a emoção pode complicar a compreensão das experiências emocionais, o que pode atrasar o desenvolvimento de intervenções eficazes na saúde emocional.

É essencial desenvolver uma cultura organizacional e educacional que equilibre a adoção da IA com o fortalecimento das habilidades humanas essenciais. Assim, poderemos maximizar os benefícios da tecnologia sem comprometer a autonomia e a capacidade cognitiva da própria humanidade.

*Andre Cruz é fundador e CEO da Neura, consultoria de estudos comportamentais e porquês. Expert em Neurociência e Comportamento, além de Pioneiro em aplicar a tecnologia da Neurociência na estratégia e na pesquisa comportamental. 

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