Entenda tecnologia capaz de afetar diretamente o mosquito transmissor da dengue (Joao Paulo Burini/Getty Images)
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Publicado em 4 de abril de 2025 às 10h00.
Natalia Verza Ferreira*
A dengue tem se consolidado como uma crise de saúde pública em escala global, afetando países geograficamente tão distantes uns dos outros como México, Cabo Verde e Bangladesh. Em 2024, as Américas registraram mais de 13 milhões de casos suspeitos, quase o triplo do ano anterior, com um aumento de mais de 200% nas mortes relacionadas ao vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, vetor da doença, segundo a Organização Panamericana de Saúde (Opas).
Fatores como mudanças climáticas, crescimento populacional acelerado, urbanização desordenada e saneamento precário têm contribuído para a proliferação do Aedes aegypti, e, consequentemente, para o aumento alarmante das doenças transmitidas por ele. O Brasil, em particular, foi duramente atingido, com mais de 6,5 milhões de casos prováveis de dengue em 2024, e 5.872 mortes confirmadas até dezembro – o país com maior número de casos em todo o mundo.
2025 começou com a história se repetindo – no primeiro trimestre, a maior parte dos contágios se concentrou na Região Sudeste. São Paulo liderou os números, registrando 375 mil casos prováveis nos primeiros meses de 2025 e contabilizando 238 das 322 mortes confirmadas no país. Em fevereiro passado o estado decretou estado de emergência em saúde pública.
O avanço da doença deixa claro que as estratégias tradicionais de controle, como campanhas de prevenção e uso de inseticidas, vêm se tornando menos eficazes. O mosquito vem se adaptando cada vez melhor ao ambiente urbano, encontrando criadouros crípticos para sua reprodução. Nesse cenário, inovações tecnológicas surgem como esperança no combate à dengue. Uma das soluções promissoras é a utilização da bactéria Wolbachia, presente naturalmente em cerca de 60% dos insetos, mas ausente no Aedes aegypti. Quando introduzida nesse mosquito, a Wolbachia impede que os vírus da dengue, Zika, chikungunya e febre amarela urbana se desenvolvam dentro dele, contribuindo para a redução dessas doenças.
O método consiste em desenvolver linhagens de mosquitos portadores da bactéria em laboratório e liberá-los no ambiente urbano, onde se reproduzem e disseminam a bactéria para as gerações seguintes, diminuindo a capacidade de transmissão dos vírus.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou, em 2022, sua intenção de reduzir a taxa global de dengue em 25% até 2030. A tecnologia da Wolbachia foi citada como tendo grande valor para o controle da dengue, e fez um chamado para que mais organizações ao redor do mundo façam a produção e a distribuição de mosquitos com Wolbachia para que o produto tenha maior segurança, eficácia, acessibilidade e preço acessível. Frente ao chamado da OMS, a Oxitec, empresa líder em soluções biotecnológicas para controlar vetores de doenças presente no Brasil desde 2011, lançou Sparks, uma plataforma baseada na tecnologia Wolbachia que visa escalar o combate à dengue no Brasil e no mundo.
Essa iniciativa global representa um avanço significativo no controle do Aedes aegypti e das doenças causadas por ele, e complementa muito bem as tecnologias tradicionais existentes. Ela vem se somar a outras, como o Aedes do Bem, da própria Oxitec, que usa mosquitos geneticamente modificados para supressão da população do mosquito vetor de maneira biológica e sustentável.
A Oxitec está implementando em sua fábrica em Campinas, SP, a maior capacidade de produção de mosquitos com Wolbachia do país, capaz de beneficiar 100 milhões de pessoas no Brasil e em outros países do mundo.
A expectativa é que, com a plataforma Sparks, a tecnologia da Wolbachia esteja disponível para mais cidades que dela precisam, e possamos atingir uma redução substancial nos casos de dengue no Brasil, aliviando o sistema de saúde e salvando vidas.
A ciência e a inovação desempenham papel crucial no controle de epidemias. Investir em novas tecnologias é essencial para enfrentar desafios como a dengue. É imperativo que governos, instituições de pesquisa e sociedade civil unam esforços para apoiar e implementar soluções inovadoras, garantindo o acesso a essas ferramentas e um futuro mais saudável e seguro para todos.
*Natalia Verza Ferreira é diretora executiva da Oxitec do Brasil e doutora em Genética e Biologia Molecular
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