Naomi Nascimento Ferreira, estudante de Medicina da UFC: “Vi muitas mulheres ao meu redor interrompendo os estudos por vários motivos, e um deles foi a gravidez precoce” (Germano Lüders/Exame)
Repórter
Publicado em 29 de novembro de 2025 às 13h32.
Última atualização em 29 de novembro de 2025 às 13h51.
A saúde da mulher ganha atenção no Brasil. No último mês, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que cria licença menstrual de até dois dias por mês para mulheres com dores e doenças ginecológicas incapacitantes, medida que segue para análise do Senado. Enquanto o governo debate políticas nesta frente, uma jovem de 23 anos do Ceará decidiu agir por conta própria.
Naomi Nascimento Ferreira, estudante de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), criou a "Missão Mulher Saudável", iniciativa que leva diagnóstico, educação sexual, planejamento familiar e acolhimento a comunidades rurais. Seu trabalho, que já alcançou centenas de famílias, ganhou o Prêmio Na Prática: Protagonismo Universitário 2025, na categoria Nordeste.
Nascida em Fortaleza e criada em Caucaia, Ferreira cresceu em meio à pobreza e à violência. “Eu morava ao lado de uma comunidade. Estava imersa naquela situação”, lembra. Filha de pais que romperam a extrema pobreza e cursaram Direito pelo ProUni já adultos, ela foi a primeira mulher de sua geração a chegar ao ensino superior.
“Vi muitas mulheres ao meu redor interrompendo os estudos por vários motivos, e um deles foi a gravidez precoce. Esse ciclo pode mudar”, diz Ferreira que é a única da família que conseguiu entrar na faculdade.
Aos 10 anos, Ferreira ouviu uma frase que nunca esqueceu: “Se contente com o seu destino, talvez você não vá ser muita coisa.”
O impacto virou combustível. A virada veio ao passar no Colégio Militar do Corpo de Bombeiros, onde descobriu o prazer de estudar. Depois de um ano de cursinho, ingressou na Medicina da UFC aos 19 anos. No sexto semestre, encontrou seu propósito no módulo de ginecologia. Um conselho do orientador, Leonardo Bezerra, foi decisivo: “Foca no que elas estão dizendo. O principal é ouvir a paciente.”
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O caso de uma mulher com endometriose avançada, incapaz de trabalhar por causa das dores, marcou Ferreira profundamente.
“Muitas acham que mulher sofrer com dor é normal, porque a sociedade reforça isso”, diz a estudante de medicina.
No interior, a situação é ainda mais grave: mulheres viajam de madrugada para conseguir uma consulta e, mesmo assim, passam anos sem diagnóstico.
Para enfrentar essa realidade, Ferreira criou primeiro a Liga de Ginecologia Minimamente Invasiva (sob orientação do Dr Leonardo Bezerra, coordenador do módulo de Ginecologia da Universidade Federal do Ceará), voltada à formação de estudantes. Mas percebeu que precisava ir além. Assim nasceu a Missão Mulher Saudável, estruturada em três eixos:
A atuação se expandiu com a chegada da Expedição Cirúrgica, projeto da USP, que realizou 256 cirurgias (50 ginecológicas), 800 ultrassonografias e 500 atendimentos clínicos na região.
“Ver um centro cirúrgico no interior mudar vidas que jamais teriam acesso foi incrível”, afirma.
Sobre o futuro, Ferreira pretende estudar no Brasil e trabalhar diretamente no atendimento às mulheres
“Quero mostrar para essas mulheres que elas não estão limitadas ao meio, nem à doença. Existe tratamento, existe futuro, existe sonho.”