Pedro Henrique Docema Rodrigues, estudante de Medicina da USP: “Quero fazer da medicina minha ferramenta de transformação social” (Germano Lüders/Exame)
Repórter
Publicado em 30 de novembro de 2025 às 08h03.
Na medicina, há especialidades que salvam vidas em minutos, como na sala de cirurgia, no pronto-socorro ou na UTI. E há outra, mais silenciosa, mais paciente e menos celebrada: a medicina preventiva e social. Quem aposta nesta área é conhecido como médico sanitarista. A que aumenta a expectativa de vida de um país décadas antes de qualquer emergência acontecer. A que cria impacto com vacinas, saneamento, nutrição, educação e presença contínua em territórios onde o Estado muitas vezes não chega.
É essa a medicina que Pedro Henrique Docema Rodrigues, estudante da USP, defende e que aos 21 anos o ajudou a levar o Prêmio Na Prática: Protagonismo Universitário na categoria Sudeste. Foi em territórios vulneráveis que Rodrigues encontrou o seu propósito com a medicina. “Na primeira vez que eu cheguei no quilombo do Kalunga, em Goiás, eu falei: isso que eu quero para a minha vida, fazer da medicina minha ferramenta de transformação social,” conta.
Nascido em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, Rodrigues é filho de um mestre de obras, que começou a trabalhar com carteira assinada aos oito anos, e de uma dentista. Esse contraste moldou o ritmo da infância e a determinação do estudante.
Ele foi o primeiro bolsista integral da melhor escola particular de sua cidade, participou de cerca de 60 olimpíadas do conhecimento — e levou medalha em mais da metade delas. Durante a pandemia, estudava das 7h às 22h com materiais de cursinho emprestados. O resultado veio: aos 17 anos, entrou na faculdade de Medicina da USP.
Já na universidade, Rodrigues decidiu “levantar a bandeira” da saúde pública por meio da histórica Bandeira Científica da USP. Criado em 1957, o movimento levava estudantes ao interior do país para mapear doenças tropicais e pressionar governos. O projeto foi desativado na ditadura, refundado em 1998, tornou-se referência latino-americana com até 200 participantes e 15 cursos — e foi fechado oficialmente durante a pandemia.
“A Bandeira Científica era o maior projeto de extensão da USP. Não existe nada parecido na América Latina em saúde”, afirma Rodrigues. “Eu me recusei a aceitar que um projeto desse tamanho tinha desaparecido.”
O primeiro passo foi procurar quem conhecia a história: o patologista Paulo Saldiva, que coordenou a refundação da Bandeira em 1998. Ele orientou Rodrigues a recomeçar o movimento com uma equipe pequena.
Pedro escreveu um novo estatuto, um novo regimento interno, desenhou uma governança mais eficiente e reuniu uma diretoria de colegas. Depois, escolheu o território de maior vulnerabilidade de São Paulo: o Vale do Ribeira. Em dois dias, conseguiu apoio oficial das prefeituras de Iguape e Ilha Comprida.
Também garantiu patrocínio da farmacêutica Sanofi, que anos atrás havia sido a maior apoiadora da Bandeira.
Antes da primeira expedição — marcada para dezembro de 2024 —, o Brasil viveu as enchentes no Rio Grande do Sul. Rodrigues decidiu criar um braço de atuação emergencial: a Liga de Saúde Humanitária.
Com apoio da ONG Xingu+Catitu, da Cruz Vermelha e da Força Aérea, uma equipe de cerca de 40 pessoas atendeu comunidades indígenas e quilombolas isoladas por semanas, retirando árvores com motosserra e alcançando áreas remotas.
A primeira expedição da nova Bandeira Científica ocorreu em dezembro de 2024, no Vale do Ribeira, com 198 participantes de múltiplas áreas. Foram mais de 4 mil atendimentos médicos e odontológicos, realização de exames como ultrassons, eletrocardiogramas e endoscopias em regiões sem acesso — além da entrega de óculos para todas as crianças da rede pública.
A próxima expedição acontece agora, em dezembro, na Ilha do Marajó, com 150 participantes que vão levar ações de saneamento básico, nutrição, engenharia ambiental e produção cultural. A captação superou 750 mil reais, via patrocínios e leis de incentivo.
Paralelamente, Rodrigues se prepara para um programa MD-PhD, o doutorado integrado à graduação, raro no Brasil. Sua pesquisa desenvolve o conceito de “saúde humanitária ampliada”, que une assistência imediata a estratégias de desenvolvimento de longo prazo.
O plano inclui acompanhar por três anos a região de Melgaço (PA), pior IDH do Brasil, com ações que vão de saneamento a energia, de saúde bucal a atenção primária — e transformar essas evidências em políticas públicas.
Depois, o estudante quer criar o primeiro núcleo de estudos humanitários do Sul Global no Instituto de Estudos Avançados da USP. E seguir carreira como empreendedor social, sanitarista e pesquisador ligado ao SUS e a organismos internacionais.
Sobre o Prêmio Na Prática, Rodrigues diz que o reconhecimento chega em um momento crucial:
“Eu trabalho com populações invisíveis. Não existe prêmio para o que eu faço — e esse reconhecimento traz luz a algo que é essencial, pouco valorizado e que impacta tantas vidas.”