Ciência

Dispositivo cria 'nariz' artificial para pessoas sem olfato

Sistema experimental utiliza estímulos elétricos gerados por sensores químicos para alertar sobre a presença de substâncias específicas

Nariz: tecnologia testa forma alternativa de detecção de odores (Mheim3011/Thinkstock)

Nariz: tecnologia testa forma alternativa de detecção de odores (Mheim3011/Thinkstock)

Publicado em 30 de novembro de 2025 às 06h59.

Pesquisadores testaram um dispositivo experimental desenvolvido para indicar a presença de determinados odores sem depender do nariz. A tecnologia foi criada para auxiliar pessoas com anosmia, condição que pode surgir após infecções virais, traumas ou outras doenças, e que reduz a percepção de cheiros. O estudo foi publicado na revista Science Advances.

O sistema não tenta restaurar o olfato original, mas utiliza outra via neurossensorial presente no nariz: o nervo trigêmeo. Ele é responsável por sensações como frescor, ardência e temperatura do ar inspirado, funções que podem ser acionadas mesmo quando o olfato está comprometido.

Como funciona o “nariz” artificial

A pesquisa, conduzida por cientistas do CNRS, na França, usou um sensor químico comercial capaz de identificar aromas específicos e convertê-los em padrões de estímulos elétricos. O sinal, semelhante a um “código” transmitido para o interior das narinas, é enviado por eletrodos presos à parede nasal.

Nos testes, nove participantes — cinco com olfato preservado e quatro com distúrbios olfativos — relataram perceber os estímulos elétricos, descritos como sensações leves e irritativas. A equipe avaliou então se os voluntários conseguiam diferenciar padrões associados a quatro odores distintos, como da flor de lilás e da framboesa. Cada aroma recebia uma combinação única de pulsos elétricos.

Algumas pessoas distinguiram dois ou mais padrões, embora sem identificar o cheiro correspondente. Após ajustes no protocolo, parte dos participantes conseguiu diferenciar consistentemente entre dois estímulos. Os pesquisadores afirmam que, com treinamento, seria possível associar padrões específicos a aromas reais do cotidiano.

A pesquisa destaca ainda que a tecnologia pode ter aplicações práticas, sobretudo como ferramenta de alerta para situações de risco. Uma versão miniaturizada do sensor poderia avisar sobre a presença de gás natural ou outros compostos relevantes para segurança doméstica e industrial. Para quem perdeu o olfato, um sensor nasal vestível evitaria a necessidade de carregamento de dispositivos portáteis.

Apesar do potencial, pesquisadores afirmam que a solução não deve reproduzir a experiência olfativa completa. O olfato humano depende de cerca de 400 receptores capazes de reconhecer bilhões de combinações químicas, além de ativar áreas cerebrais relacionadas a memória e emoção — elementos que não são contemplados no método baseado em estimulação trigeminal.

Os cientistas trabalham agora em formas de aprimorar tanto a codificação digital do odor quanto o conforto das estimulações elétricas. Um dos maiores desafios é o próprio sensor químico: diferentemente de microfones, que captam qualquer som, sensores de odor costumam identificar apenas um conjunto restrito de compostos e precisam funcionar de forma rápida e estável em diferentes ambientes.

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