Cérebro humano: pesquisas mostram que temos em média 350 conhecidos e reconhecemos até mil rostos (Yuichiro Chino/Getty Images)
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Publicado em 29 de novembro de 2025 às 06h30.
A adolescência dura muito mais tempo do que se imaginava. É o que indica um novo estudo da Universidade de Cambridge, que analisou quase 4 mil exames de ressonância magnética e concluiu que as transformações cerebrais típicas dessa fase só chegam ao fim por volta dos 32 anos.
A pesquisa, publicada na Nature Communications nesta terça-feira, 25, analisou exames de 3.802 pessoas de até 90 anos e concluiu que as conexões cerebrais mudam de direção em momentos específicos da vida.
Essas transições ocorrem porque, em certas idades, o padrão de comunicação entre regiões do cérebro se reorganiza, como se o órgão refizesse seu "mapa interno" para adotar um novo modo de funcionamento.
Para detectar essas viradas, os pesquisadores analisaram a substância branca, região do cérebro formada pelas fibras que conectam diferentes áreas e permitem a comunicação rápida entre elas.
O método usado foi a ressonância magnética de difusão, que mostra o percurso da água no tecido nervoso e revela o desenho dessas conexões. As imagens foram combinadas com ferramentas que analisam o comportamento das redes neurais, que ajudam a enxergar quando essas curvas se alteram.
"Sabemos que a estrutura do cérebro é crucial para o nosso desenvolvimento, mas não temos uma visão completa de como ela muda ao longo da vida e por quê", disse Alexa Mousley, autora principal da pesquisa. "Este é o primeiro trabalho a identificar as principais fases da formação das conexões cerebrais ao longo da vida humana", concluiu.
A conclusão sobre a adolescência prolongada surgiu quando os pesquisadores identificaram que a eficiência das redes neurais, que caracteriza essa fase, segue crescendo até o início dos 30 anos. Esse padrão só muda aos 32, quando a arquitetura neural assume um padrão mais estável.
Segundo os autores, a primeira fase do desenvolvimento cerebral vai do nascimento aos nove anos.
Nesse período, o cérebro elimina sinapses pouco usadas e fortalece as mais ativas, preparando o terreno para mudanças cognitivas posteriores. Por volta dos nove anos ocorre o primeiro ponto de inflexão, quando o padrão das conexões muda de direção.
A partir dos nove anos, o cérebro entra no que os cientistas classificam como adolescência. Nessa fase, as redes de comunicação se tornam progressivamente mais eficientes, para impulsionar habilidades como raciocínio, atenção e velocidade de processamento. Essa eficiência crescente ajuda a explicar por que esse intervalo é tão importante para cognição, comportamento e vulnerabilidade a transtornos.
"A adolescência é a única fase em que essa eficiência está aumentando", disse Mousley. Ela ressalta que isso não significa que pessoas de 30 anos se comportem como adolescentes, mas que o cérebro continua num processo de reorganização típico dessa fase, mas agora em direção à maturidade.
O ponto de virada mais importante na faixa dos 32 anos. As conexões mudam de direção e a arquitetura neural assume um padrão mais estável.
Começa, então, a fase adulta, considerada a mais longa. Entre os 30 e os 60 anos, o cérebro mantém poucas alterações estruturais e apresenta desempenho mais uniforme. Segundo os pesquisadores, este seria um período de "platô" da inteligência e da personalidade.
Aos 66 anos surge o terceiro marco, que seria o início do envelhecimento inicial. A substância branca começa a perder integridade, e a comunicação entre regiões cerebrais fica gradualmente mais lenta.
O envelhecimento tardio aparece por volta dos 83 anos, quando a conectividade diminui ainda mais. Nessa etapa, o cérebro passa a depender de rotas específicas para manter funções essenciais, enquanto redes mais amplas perdem eficiência.
Para Duncan Astle, coautor do estudo, entender essas transições ajuda a esclarecer por que certas idades estão mais associadas ao surgimento de condições específicas — desde dificuldades de aprendizagem na infância até transtornos na adolescência e doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e demência.
"Compreender que a jornada estrutural do cérebro não é uma progressão constante, mas sim uma sequência de pontos de virada, nos ajudará a identificar quando e como sua estrutura se torna mais vulnerável", afirmou em nota.
A pesquisa também indica que a trajetória do cérebro adulto e idoso é menos linear do que se acreditava antes.
Características como organização modular e importância relativa de determinadas regiões ganham ou perdem peso ao longo dos anos, o que redefine vulnerabilidades e capacidades em diferentes fases da vida.
"Essas eras fornecem um contexto importante para entendermos no que nossos cérebros podem ser mais eficazes ou mais vulneráveis em diferentes fases da vida. Isso pode nos ajudar a compreender por que alguns cérebros se desenvolvem de maneira diferente em momentos-chave da vida, sejam dificuldades de aprendizagem na infância ou demência na terceira idade", concluiu Mousley.