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Um tanque só de mulheres e o novo capítulo do empreendedorismo no Brasil

Bancada feminina, negócios transformadores e o futuro do empreendedorismo brasileiro

O tanque só de mulheres simboliza o início de um novo capítulo no empreendedorismo nacional (Divulgação)

O tanque só de mulheres simboliza o início de um novo capítulo no empreendedorismo nacional (Divulgação)

Cris Arcangeli
Cris Arcangeli

CEO da beuty'in

Publicado em 26 de novembro de 2025 às 00h33.

Última atualização em 30 de novembro de 2025 às 19h55.

A 10ª temporada do Shark Tank Brasil chegou com um marco inédito: pela primeira vez, um episódio reúne uma bancada composta exclusivamente por mulheres avaliando os pitches de empreendedores. O gesto ultrapassa a esfera simbólica. Ele reflete um movimento estrutural em direção à ampliação do protagonismo feminino em inovação, liderança e investimento temas que hoje concentram debates estratégicos no ambiente empresarial brasileiro e global.

No meu artigo anterior, publicado dia 19 de novembro, aqui na revista Exame, discuti o impacto macroeconômico mundial da sub-representação feminina no empreendedorismo. A ausência de mulheres em posições de influência e acesso a recursos gera um déficit estimado em US$ 5 trilhões por ano, segundo estudo do Boston Consulting Group. Desta vez, a análise se concentra no Brasil. Se globalmente já há consenso sobre o potencial perdido, os dados brasileiros ajudam a dimensionar, com clareza, tanto o avanço quanto as barreiras que ainda freiam o crescimento das mulheres empreendedoras.

O tanque como laboratório real do comportamento empreendedor

Embora seja apresentado como um produto televisivo, o Shark Tank é, na prática, um ambiente de alta complexidade decisória. Ali, caminhos empresariais são avaliados em segundos, e não apenas por planilhas ou projeções. Há elementos de percepção humana, clareza estratégica, capacidade de execução e visão de longo prazo.

Para quem está na bancada, como eu estive por diversas temporadas, o tanque funciona como uma espécie de laboratório vivo de comportamento empreendedor: ele revela quem conhece profundamente seu mercado, quem domina métricas, quem entende o cliente e quem é capaz de sustentar uma solução relevante.

A presença de uma bancada 100% feminina potencializa esse diagnóstico. Ela reforça que diversidade não é apenas estética ou simbólica. Ela muda o critério de avaliação, amplia repertório e influencia todo o ecossistema, inspirando empreendedoras e investidores.

O avanço consistente das mulheres no empreendedorismo brasileiro

O cenário nacional revela que o empreendedorismo feminino já é uma força econômica expressiva. Dados recentes ajudam a dimensioná-lo:

  • 46% dos empreendedores iniciais são mulheres, segundo levantamento da ABRACD.
  • O Sebrae aponta a existência de 10,3 milhões de negócios liderados por mulheres em operação no Brasil.
  • No ambiente de inovação, 31% das startups já têm fundadoras, número que cresce de forma sustentada ano após ano.

Esse conjunto de indicadores confirma que o talento feminino não é exceção. É uma presença estruturada, numericamente relevante e em plena expansão. O problema não está na entrada das mulheres no ecossistema empreendedor, mas sim no que acontece depois, quando essas empresas buscam capital para crescer.

Apesar de representarem quase metade dos empreendedores do país, as fundadoras recebem menos de 12% do investimento de Venture Capital no Brasil. Isso significa que a maior parte das mulheres empreende com recursos próprios, crédito bancário caro ou capital de giro limitado, o que reduz significativamente o potencial de escala.

As barreiras invisíveis que travam crescimento e inovação

A desigualdade de acesso ao capital e às oportunidades não ocorre por falta de qualificação. Pesquisas mostram que mulheres empreendedoras têm, em média, maior nível de escolaridade do que seus pares masculinos e apresentam índices superiores de adimplência, mesmo enfrentando juros mais altos e menos opções de financiamento.

Ainda assim, os resultados financeiros são impactados por fatores estruturais:

  • 59% das empreendedoras faturam até R$ 2.500 por mês, segundo o Sebrae.
  • A renda média feminina é 24,4% menor do que a dos homens empreendedores.
  • Mulheres dedicam menos horas ao negócio devido à sobrecarga de cuidados domésticos e familiares, elemento que limita a expansão e a capacidade operacional.

Essas desigualdades ajudam a explicar por que o Brasil ocupa a 60ª posição entre 77 países no ranking global de empreendedorismo feminino do GEDI. Não é falta de talento; é falta de condições para que esse talento possa se transformar em negócios de alto impacto.

Representatividade que modifica o ecossistema

A formação de uma bancada exclusivamente feminina no Shark Tank transforma não apenas o programa, mas o imaginário de quem acompanha o mercado. Estudos do Sebrae indicam que a presença de mulheres em startups inovadoras cresceu de 8,65% para mais de 30% nos últimos anos, o que evidencia sua expansão em áreas historicamente dominadas por homens, como tecnologia, inovação e gestão estratégica.

Pesquisas internacionais também mostram que empresas lideradas por mulheres podem apresentar retornos financeiros iguais ou superiores quando comparadas a negócios liderados por homens. Embora o Brasil ainda careça de séries históricas amplas que mensurem retorno por dólar investido especificamente no ambiente local, o conjunto das evidências aponta uma tendência clara: investir em mulheres é economicamente inteligente.

Não se trata apenas de justiça ou representatividade. Trata-se de performance, eficiência e competitividade.

Por que o episódio especial importa, e muito

Representatividade não é detalhe estético: é um componente de infraestrutura mental e econômica. Quando mulheres ocupam espaços estratégicos em fundos, conselhos, acelerações, incubadoras e programas de investimento, o próprio ambiente de negócios é reconfigurado.

A presença feminina na bancada:

  • amplia repertórios;
  • refina critérios;
  • reduz vieses;
  • fortalece a credibilidade de empreendedoras;
  • e eleva o nível das discussões sobre inovação e estratégia.

Para quem apresenta um pitch, enxergar mulheres avaliando negócios com profundidade técnica e visão estratégica gera um efeito multiplicador: cria referência, impulsiona ambições e remove barreiras psicológicas que há décadas limitam a participação feminina no ecossistema de investimento.

Esse episódio do Shark Tank não é celebrativo. É uma demonstração prática de que competência feminina em negócios é regra, não exceção.

O impacto ampliado e o futuro possível

O movimento visto no programa dialoga com iniciativas estruturantes, como o projeto “Feito por Mulheres!”, que lancei no dia internacional do empreendedorismo feminino no meu último artigo. Um conceito de um selo, ideia já apresentada ao governo, para identificar e dar visibilidade a negócios fundados ou liderados por mulheres, fortalecendo sua presença no mercado e incentivando consumidores, fornecedores e investidores a direcionarem recursos de maneira mais estratégica.

A experiência internacional mostra que políticas públicas, selos, fundos dedicados e programas de aceleração são capazes de transformar ecossistemas inteiros.

Shark Tank especial “10ª edição”: o que esperar

O episódio especial é um convite para observar, na prática, como diversidade e competência se traduzem em análise estratégica, clareza empresarial e decisões mais robustas. Ele demonstra que o talento feminino está profundamente alinhado ao futuro da economia brasileira baseado em inovação, impacto, propósito e disciplina.

O tanque só de mulheres simboliza o início de um novo capítulo no empreendedorismo nacional. Não se trata de uma edição temática, e sim de um recorte concreto de futuro: negócios mais diversos, decisões mais eficazes e um mercado mais competitivo.

E claro, a pergunta que todos fazem:

“Cris, você investiu em alguma empresa?”

A resposta está no episódio.

Os episódios completos já estão disponíveis em acesso antecipado no canal oficial do Shark Tank Brasil no YouTube, e também no Sony Channel.

Te espero no tanque!!