Colunista
Publicado em 27 de novembro de 2025 às 20h38.
Eu entendo perfeitamente a sensação de vertigem que acomete qualquer um que tente acompanhar o noticiário hoje em dia. Vivemos em uma era de crises simultâneas que parecem desconectadas à primeira vista. Temos uma guerra em curso no leste da Europa, tensões comerciais crescentes na Ásia, instabilidade crônica no Oriente Médio e uma polarização política interna que paralisa grandes nações. Fica difícil encontrar uma linha de raciocínio que costure tudo isso. Muitas vezes, caímos na tentação de explicar cada incêndio isoladamente ou acabamos culpando a personalidade errática deste ou daquele líder mundial.
Eu gostaria de propor uma abordagem diferente. Não é uma fórmula mágica que explica tudo, mas é uma ferramenta geopolítica surpreendentemente útil para tentar colocar um pouco de ordem nesse caos aparente.
Existe uma maneira clássica de olhar para o mundo, a partir de teorias das relações internacionais, que sugere que a história é moldada por uma disputa contínua entre duas mentalidades distintas. Podemos chamá-las de visão continental e visão marítima.
O duelo entre a terra e o mar
Vamos imaginar primeiro a visão continental. Aqui estamos falando de grandes potências terrestres, países com vastos territórios e cercados por vizinhos potencialmente hostis por todos os lados. Para essas nações, a segurança sempre foi uma função direta do controle da terra. A lógica aqui é simples e implacável. Quanto mais longe suas fronteiras estiverem do seu coração político e econômico, mais seguros eles se sentiam contra invasões. É uma visão de mundo onde a riqueza é frequentemente encarada como algo físico e finito, como recursos naturais, solo fértil e população para formar exércitos. Nesse jogo de soma zero, para alguém ganhar mais segurança ou território, outro inevitavelmente precisa perder.
A Rússia é o exemplo perfeito dessa mentalidade em ação. A invasão da Ucrânia pode ser lida, para além das justificativas ideológicas, como uma tentativa de garantir a profundidade estratégica que eles consideram vital para a defesa de Moscou. Eles olham para a vasta planície europeia e veem uma estrada aberta para invasores, algo que a história lhes ensinou a temer repetidas vezes.
Do outro lado do tabuleiro, temos a visão marítima. Esta foi a lógica que permitiu a ascensão de pequenas nações a impérios globais, como a Grã-Bretanha no passado, e que guia os Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra Mundial. Aqui o foco muda drasticamente. A prioridade deixa de ser apenas a conquista de terra e passa a ser a garantia de que as rotas de comércio permaneçam abertas e seguras. A riqueza nessas sociedades tende a vir da complexidade das trocas comerciais e da inovação, muito mais do que da simples extração de recursos. É um sistema que permite que vários países enriqueçam simultaneamente, desde que todos concordem em seguir certas regras mínimas de convivência e comércio.
Quando a geopolítica encontra a sua carteira
Você pode legitimamente se perguntar o que isso tem a ver com a sua vida ou com o seu dinheiro. A resposta é que tem absolutamente tudo a ver.
A economia globalizada que conhecemos nas últimas décadas foi construída quase inteiramente sobre a predominância dessa visão marítima. Nós nos acostumamos com décadas de inflação relativamente controlada e uma variedade imensa de produtos acessíveis nas prateleiras justamente porque as mercadorias circulavam livremente. As empresas em que investimos puderam criar cadeias de suprimentos ultraeficientes, o famoso "just-in-time", onde peças fabricadas em um continente eram montadas em outro e vendidas em um terceiro, tudo isso cruzando oceanos sem grandes impedimentos ou medo de pirataria estatal.
O momento atual é particularmente delicado porque estamos testemunhando um retorno agressivo da mentalidade continental. Quando países começam a priorizar a segurança territorial acima de tudo, ou quando decidem se fechar em blocos econômicos rivais por desconfiança mútua, aquela eficiência econômica global começa a se quebrar. Isso inevitavelmente gera pressões inflacionárias mais persistentes e torna o ambiente para investimentos muito mais ariscado e imprevisível.
O risco de esquecermos as regras do jogo
O que mais me chama a atenção é que até mesmo os Estados Unidos, os grandes fiadores e principais beneficiários desse sistema marítimo aberto, andam flertando com ideias isolacionistas. Se a maior potência do mundo decidir que também quer jogar com a mentalidade continental, fechando suas fronteiras econômicas e tarifando aliados, o mundo pode se tornar rapidamente um lugar mais pobre, com menos crescimento e muito mais atrito entre as nações.
Usar essas lentes continentais e marítimas não vai nos dar todas as respostas para os problemas complexos do século XXI. O mundo real é sempre mais bagunçado do que qualquer teoria elegante. No entanto, elas nos ajudam a perceber que muitas das turbulências que sentimos diretamente no nosso bolso não são meros acidentes de percurso. São reflexos de uma disputa profunda e antiga sobre como o mundo deve ser organizado. E entender as regras desse jogo é um exercício útil para não sermos pegos totalmente desprevenidos pelas suas reviravoltas.