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Tarifas, protecionismo e o Brasil: quando o governo vai agir como adulto?

É fato que o Palácio do Planalto colheu dividendos políticos com o anúncio das tarifas de Trump

Presidente dos EUA, Donald Trump, exibe ordem executiva assinada por ele que impõe tarifaço global  (Saul Loeb/AFP)

Presidente dos EUA, Donald Trump, exibe ordem executiva assinada por ele que impõe tarifaço global (Saul Loeb/AFP)

Publicado em 18 de agosto de 2025 às 20h09.

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros deveria servir como um alerta — e, mais ainda, como uma oportunidade. Mas o que vimos até aqui é o contrário: um governo perdido entre bravatas ideológicas e retóricas eleitorais, incapaz de reagir com a seriedade e a velocidade que o momento exige. Enquanto o governo transforma o episódio em palanque, o setor produtivo sofre e o país perde mercados.

É fato que o Palácio do Planalto colheu dividendos políticos com o anúncio das tarifas de Trump. O Brasil virou manchete, denunciou o “protecionismo americano” e se viu rodeado de solidariedade retórica. Mas a realidade econômica, como sempre, se impõe: as tarifas entram em vigor, as exportações minguam, e o governo não costurou absolutamente nenhum acordo comercial para mitigar seus efeitos.

O que falta? Vontade política. Clareza de objetivos. Coragem para negociar. A economia não se faz com desejos, se faz com dados, estratégia e ação. Enquanto países como Japão, Coreia do Sul e até membros da União Europeia enfrentam o protecionismo americano com negociações duras e acordos pragmáticos, o Brasil patina em reações tímidas e improvisadas. Ao invés de ocupar espaços com diplomacia econômica ativa, o Itamaraty assiste, o Ministério da Fazenda hesita e os setores afetados, como o agro e a indústria de transformação, sentem-se abandonados à própria sorte.

É preciso dizer com todas as letras: o Brasil precisa negociar, queira ou não. E mais, precisa também rever suas próprias barreiras. A proteção eterna que impomos à nossa economia não nos fortalece; nos enfraquece. Somos uma das economias mais fechadas do mundo. Nossos produtos enfrentam dificuldade para competir lá fora, e nosso mercado interno é sufocado por tarifas elevadas, burocracia, baixa produtividade e altos custos de produção. A consequência é direta: pagamos mais caro, consumimos menos, inovamos pouco e, diante de choques externos, como agora, temos quase nenhuma margem de reação.

Enquanto Trump fecha portas, o Brasil deveria estar abrindo janelas. Simplificando tarifas, reduzindo o custo de importação de insumos produtivos, assinando novos acordos comerciais e atraindo investimentos estrangeiros. Mas isso exigiria maturidade política, algo que parece em falta em Brasília. O governo prefere agir como criança mimada, que bate o pé porque o mundo não faz o que ela quer. Só que o mundo não espera, não perdoa e não negocia com birra.

O recente plano de contingência para mapear novos mercados na Ásia, Oriente Médio e Sul Global - para tentar redirecionar exportações como café, carne e frutas, - é um começo, mas é reativo, lento e, até aqui, sem garantias de sucesso. O problema, portanto, não está apenas nos EUA. O Brasil está encolhendo a irrelevância global porque insiste em se proteger do mundo ao invés de se preparar para competir nele.

É claro que abrir a economia não significa abandonar os setores vulneráveis. A abertura comercial exige transição, capacitação e apoio à modernização. Mas também é o caminho mais eficiente para aumentar a produtividade, reduzir a pobreza e integrar o país às cadeias globais de valor. Proteger indefinidamente só perpetua a ineficiência e transfere o custo para quem menos pode pagar: o consumidor.

A verdade é que o governo brasileiro age como se a economia fosse um teatro de vontades. Mas em economia não existe alquimia. Tarifas de 50% sobre produtos brasileiros tornam nossas exportações inviáveis, especialmente em estados como Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso, grandes exportadores de commodities e de produtos manufaturados. As vendas caem, os estoques sobem, os preços internos despencam. O impacto é direto na renda, no emprego e na arrecadação.

Enquanto o mundo opera com base em trocas estratégicas — acesso a mercado por tecnologia, terras raras por abertura comercial — o Brasil continua encastelado num modelo que já provou não funcionar. Falta ao governo coragem para mexer em dogmas ideológicos, abrir negociações bilaterais com pragmatismo e parar de tratar política comercial como guerra cultural.

Se quisermos um Brasil competitivo e relevante no século XXI, temos que substituir a lógica do medo pela lógica da eficiência. Isso começa com um gesto simples, mas raro em Brasília: agir como adulto.