As mudanças mais esperadas são o aumento da tributação para os mais ricos e a diminuição de impostos no consumo Foto: Pixels/Divulgação
Colunista
Publicado em 12 de agosto de 2025 às 20h19.
Última atualização em 13 de agosto de 2025 às 18h58.
O valor total sob gestão nos privates brasileiros é estimado em pouco mais de R$2 trilhões. Embora não haja estatísticas oficiais específicas sobre o percentual desse dinheiro que está lá fora, dados indiretos nos levam a crer que esse número ainda seja baixo. Por exemplo: em 2024, o Itaú afirmou que dos R$830 bilhões sob gestão do seu Private à época, apenas cerca de 21% (R$171 bilhões) estavam no exterior. Já o Bradesco, que tem o segundo maior Private do Brasil, aparentemente “está entre os menores” quando se trata de investimentos no exterior, segundo reportagem da NeoFeed.
Esses números são alarmantes e as consequências desse isolamento já são facilmente percebidas. Em 2011, a fortuna média dos 10 brasileiros mais ricos era de US$12,6 bilhões. Ao final de 2024, esse número caiu para US$10,6 bilhões (queda de 16%). Passaram-se mais de 10 anos e os empresários brasileiros empobreceram. No mesmo período, a fortuna média dos 10 mais ricos do mundo saltou de uma média de US$37,7 bilhões em 2011 para US$212,1 bilhões em 2024 (uma alta de praticamente 463%).
O poder de compra dos brasileiros está afundando.
Você é tão rico quanto o seu poder de compra. À primeira vista as pessoas podem achar que os ricos brasileiros estão quase “iguais” ao que estavam mais de uma década atrás, mas isso seria um erro tremendo. Em primeiro lugar, porque é preciso descontar a inflação ao consumidor. Entre 2011 e 2024, o CPI (“IPCA americano”) subiu cerca de 44%. Isso significa que ficar parado nesse período implica em uma redução relevante do poder de compra em dólares.
Mas não é só isso. Em segundo lugar, é preciso descontar a inflação dos ativos financeiros, imobilizados etc. É uma espécie de “inflação dos investimentos”, ou seja, a capacidade de os empresários brasileiros conseguirem ser relevantes e comprar inteligência, participações acionárias, poder de voto, etc. no capital externo.
Riqueza não serve apenas para consumir, serve para investir.
A “inflação dos investimentos” impacta muito mais a classe rica e produtiva, pois diz respeito não ao seu poder de compra, mas ao seu poder de converter seu dinheiro em ativos que geram mais valor para si e para a sociedade no tempo. Enquanto a inflação ao consumidor americano subiu cerca de 44% entre 2011 e 2024, os preços das casas mais do que dobraram em dólar (+133%, Case-Shiller). Já o preço das ações disparou mais de 350% e o valor de mercado das 10 maiores empresas do mundo subiu quase 900% no período.
Brasileiros têm menos poder de participação nas empresas globais.
Se em 2011 a fortuna do brasileiro mais rico equivalia a quase 10% do valor de mercado da maior empresa do planeta, à época a Exxon Mobil, hoje o brasileiro mais rico tem menos de 1% do valor de mercado da maior empresa do planeta, a NVIDIA (avaliada em mais de US$4 trilhões). Ao mesmo tempo, a fortuna do Americano mais rico do mundo “comprava” cerca de 15% da empresa mais valiosa do início de 2011 (Bill Gates, US$56 bilhões vs Exxon Mobil avaliada em US$364 milhões) e, ao final de 2024, o americano mais rico do mundo comprava cerca de 13% da empresa mais valiosa do mundo (Elon Musk com seus US$474 bilhões de fortuna ao final de 2024 e a Apple, avaliada em US$3,8 trilhões no mesmo período).
Enquanto o americano mais rico quase manteve seu poder de investimentos, o Brasileiro mais rico viu a sua riqueza ser vaporizada em termos relativos. Isso sem contar que não parece apropriado considerar Eduardo Saverin como um bom exemplo de “brasileiro mais rico”. Nada contra seu enriquecimento, pelo contrário, mérito belíssimo dele. Contudo, sua geração de valor se deu em ativos pouco associados ao Brasil. Ao gerar valor majoritariamente com ativos de tecnologia associados à economia americana (notadamente sua participação na Meta, antigo Facebook), Saverin é a exceção que comprova a regra de que o rico brasileiro está empobrecendo.
Se excluirmos Saverin da lista e focarmos apenas nos brasileiros que enriqueceram com negócios sujeitos à economia real brasileira, a situação seria ainda mais deprimente, com uma média de aproximadamente US$8 bilhões de fortuna entre os 10 brasileiros mais ricos remanescentes. Além disso, vale lembrar que só no último ano o número de bilionários brasileiros na Lista da Forbes caiu de 69 para 55.
Em um mundo tomado por debates superficiais, onde parte da população realmente acredita que “bilionários não deveriam existir”, essas são notícias temerárias para o país. Uma classe capitalista pujante, com poder para transformar a economia, é essencial para o desenvolvimento de uma Nação. O rico brasileiro hoje tem muito menos poder de comprar partes ou negócios inteiros bons de fora e trazer benefícios para seu país. Pelo contrário, vê-se cada vez mais forçado a externalizar suas atividades para sobreviver como capitalista relevante.
João Henrique da Fonseca: economista e sócio fundador da Azul Wealth Management (AWM). Fez carreira no Itaú BBA, onde ingressou em 2013 e permaneceu até 2021. Atuou principalmente com operações estruturadas para estatais, governos e empresas do middle market.