Donald Trump, presidente dos EUA, exibe quadro com novas tarifas (Brendan Smialowski/AFP)
Redação Exame
Publicado em 5 de abril de 2025 às 09h26.
Última atualização em 5 de abril de 2025 às 10h19.
Por Silvio Campos Neto* - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou as novas tarifas de importação do país, com alíquota universal de 10% e tarifas diferenciadas a depender do país de origem.
O Brasil ficou sujeito à tarifa de 10%, estando entre os que receberam o menor incremento em relação ao quadro atual.
A despeito da aplicação da tarifa mínima, há riscos importantes para o País decorrentes da política adotada pelo governo norte-americano.
Se, a princípio, os efeitos diretos tendem a ser menos relevantes que para outros países, há que se considerar os potenciais impactos indiretos, via repercussões macroeconômicas, movimentações nos fluxos de comércio internacional entre os países e maior percepção de risco nos mercados financeiros.
Avalia-se também que a postura inicial agressiva seja um gatilho para negociações entre as partes, que podem vir a atenuar as medidas.
De forma direta, as exportações brasileiras para os Estados Unidos podem sofrer com eventual substituição por produção local. A pauta de exportações do país para os Estados Unidos, cujo montante atingiu US$ 40,3 bilhões em 2024 (12% do total, sendo o segundo principal destino dos bens exportados), evidencia o predomínio de petróleo (não atingido pelas tarifas), aço (já sujeito às tarifas anteriores de 25%), aeronaves, café, celulose, combustíveis, além de itens industrializados.
Em avaliação inicial, para esses casos, a substituição por produção local a curto e médio prazo, não é óbvia, ainda que pontualmente setores específicos possam ser prejudicados, o que irá requerer análise mais aprofundada.
Há que se monitorar também as negociações que devem ocorrer entre outros países e os Estados Unidos, sendo que eventuais acordos poderiam forçar países a adquirir mais produtos norte-americanos – incluindo os que competem com o Brasil, ligados à agropecuária, com efeitos negativos para produtos brasileiros.
Por fim, com a expressiva taxação de produtos chineses, há o risco de aumento expressivo da oferta de produtos chineses no Brasil, diante da busca por mercados alternativos à luz das maiores barreiras nos Estados Unidos.
Do lado positivo, oportunidades deste rearranjo do comércio global também podem surgir, caso o Brasil siga sujeito a tarifas mais baixas para acessar o mercado norte-americano em relação a outros competidores. Dessa forma pode atrair investimentos que em momentos anteriores se deslocariam para outros países na região, como o México.
Porém, é preciso considerar os efeitos do ponto de vista macroeconômico. O aumento do protecionismo tarifário tende a resultar em maiores custos e menor eficiência produtiva.
Dito de outra forma, as medidas devem resultar em menor crescimento econômico mundial, via redução do comércio e perda de produtividade.
Adicionalmente, haverá importante efeito inflacionário nos Estados Unidos, uma vez que os agentes repassem o aumento de tarifas aos preços finais das mercadorias.
A maior inflação nos EUA coloca o Federal Reserve em posição difícil, tendo em vista os efeitos negativos para a atividade econômica no país. Assim, o espaço para corte dos juros seria limitado e as discussões em torno de temido quadro de estagflação no país ganhariam força.
Para o Brasil, os efeitos devem ser sentidos pelos canais financeiro e de atividade econômica global. De forma geral, o ambiente eleva a aversão ao risco e, potencialmente, os riscos para os ativos brasileiros.
De um lado, a prevalência do risco de recessão nos Estados Unidos deve resultar em dólar mais fraco em relação às principais moedas, favorecendo também a moeda brasileira. Em contraposição, com a perda mais expressiva de tração da economia chinesa e global, com reflexos para preços de commodities, a moeda deve sofrer. Nessa mesma linha estão os ativos de renda variável.
A perda de tração da economia global tem efeitos negativos para a economia doméstica.
Uma variação de 1% no PIB consolidado de nossos parceiros comerciais gera variação de 0,3% no PIB brasileiro. Ainda que a inflação no resto do globo, com exceção dos Estados Unidos, possa sustentar viés baixista, o comportamento do real pode limitar o espaço para queda de juros.
Em suma, apesar dos anúncios, o panorama ainda carrega elevada incerteza.
Negociações podem ocorrer no curto prazo, revertendo parte das medidas. De qualquer forma, concretiza-se a visão econômica do governo Trump, que tem como objetivos o reequilíbrio da balança comercial e a reindustrialização do país.
Os efeitos devem ser negativos para a economia americana do ponto de vista de atividade econômica e inflação, considerando, inclusive, o processo de décadas de desenvolvimento das grandes cadeias produtivas globais, que resultou em expressivos ganhos de produtividade e reduções de custos no próprio país.
De qualquer forma, os danos econômicos a serem gerados por essa agenda representam barreira ao seu aprofundamento ao longo do tempo, pelo menos até as eleições de meio de mandato no país.
Para o Brasil, apesar da tarifa inicial mínima, há riscos indiretos importantes que precisam ser considerados.
*Silvio Campos Neto é sócio da Tendências Consultoria.