reciclagem alumínio novellis (Divulgação/Divulgação)
Repórter
Publicado em 2 de abril de 2025 às 20h08.
Última atualização em 2 de abril de 2025 às 20h40.
Apesar de as tarifas recíprocas anunciadas pelo presidente americano Donald Trump nesta quarta-feira, 2, deixarem de fora o alumínio, a Associação Brasileira do Alumínio (Abal) voltou a manifestar preocupação com o que classificou como "potenciais efeitos indiretos e estruturais de médio e longo prazo" agora sobre a cadeia de reciclagem do metal.
Desde o dia 12 de março, os produtos de alumínio já enfrentam uma taxação de 25% e, já na ocasião, a Abal alertou para o risco de efeitos sobre as exportações brasileiras de alumínio para os Estados Unidos.
Hoje, em nota divulgada logo após o anúncio das tarifas, a associação disse que ainda é cedo para dimensionar o impacto da aplicação e chamou atenção para o fato de o "tarifaço" de Trump não incidir sobre a sucata de alumínio.
Para a entidade, isso levanta a hipótese de que os EUA possam estar utilizando essa estratégia para garantir o abastecimento de matéria-prima barata para sua indústria, enquanto aplicam tarifas elevadas sobre produtos processados, como chapas e folhas de alumínio.
"Embora a participação do Brasil nas importações americanas de produtos de alumínio seja pequena (menos de 1%), os EUA são um parceiro comercial estratégico, representando 16,8% das exportações brasileiras do metal em 2024 — o equivalente a US$ 267 milhões e 72,4 mil toneladas, das quais 54,2 mil estavam sujeitas à Seção 232. Desse volume, 76% corresponderam a chapas e folhas de alumínio. A medida tem implicações que vão além do impacto comercial imediato", diz a Abal.
O setor explica que o Brasil tem uma das indústrias de reciclagem de alumínio mais avançadas do mundo e que a cadeia de reciclagem de alumínio nacional configura uma das maiores "vantagens competitivas" do país para seu reposicionamento na cadeia global de suprimento.
Atualmente, cerca de 60% do alumínio consumido no país vem de material reciclado, o que é o dobro da média global – inferior a 30% – e bem acima da média americana, segundo a Abal.
O dado indica que o Brasil já fez investimentos pesados para estruturar uma cadeia de reciclagem eficiente, integrada à produção nacional, e que, se os EUA passam a importar grandes volumes de sucata de alumínio do Brasil sem tarifas, isso pode desviar insumos estratégicos, criar dependência de mercados externos e comprometer a autossuficiência brasileira.
"Medidas adotadas por outros países — muitas vezes guiadas por objetivos transacionais de acesso a insumos estratégicos, e não necessariamente por uma agenda de proteção industrial — podem gerar desequilíbrios capazes de fragilizar esse processo e colocar em risco a consolidação de uma cadeia produtiva integrada, sustentável e voltada ao atendimento da demanda doméstica", afirma a associação em um trecho da nota.
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A preocupação indica que se o país perder grandes volumes de sucata para exportação, pode haver um desabastecimento interno, encarecendo o alumínio reciclado e tornando a indústria mais vulnerável a flutuações externas.
"Para que o fortalecimento de uma indústria nacional seja sustentável no longo prazo, é necessário considerar a totalidade e a interdependência dos elos produtivos, com base em uma cadeia integrada, resiliente e orientada ao atendimento da demanda doméstica. Proteger um elo específico da cadeia não é suficiente se persistir a dependência de insumos estratégicos externos", diz a Abal.
O setor de alumínio argumenta que o Brasil precisa adotar medidas para proteger sua indústria, de forma a garantir condições justas de competição no mercado internacional. Ou seja, evitar que o país perca sua posição estratégica no mercado global de alumínio ao se tornar apenas um exportador de matéria-prima barata, enquanto outros países agregam valor ao metal.
Para isso, o documento destaca a "importância do fortalecimento dos instrumentos de defesa comercial e da recalibração da política tarifária nacional, com o objetivo de corrigir distorções e evitar que práticas assimétricas comprometam a competitividade da indústria brasileira do alumínio", conclui a associação.
Em nota, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) disse ter recebido com "preocupação e cautela" o anúncio do tarifaço. A entidade reforçou a necessidade de diálogo com o governo americano.
"Nos preocupamos com qualquer medida que dificulte a entrada dos nossos produtos em um mercado tão importante quanto os EUA, o principal para as exportações da indústria brasileira. No entanto, precisamos fazer uma análise completa do ato. É preciso insistir e intensificar o diálogo para encontrar saídas que reduzam os eventuais impactos das medidas", afirma Ricardo Alban, presidente da CNI.
Como parte da estratégia, a entidade já tinha confirmado a viagem de uma missão de empresários ao país, no próximo mês.
Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), também avaliou que o tarifaço de Trump não é positivo para o Brasil, mas precisa ser analisado com mais profundidade.
"O impacto dependerá de como nossos concorrentes diretos foram tarifados. Se enfrentarem taxas ainda mais altas, pode haver uma vantagem competitiva para o Brasil, já que o custo adicional será repassado ao consumidor americano", afirma. Ele defende que o governo analise com cautela os desdobramentos da medida para não correr o risco de uma "retaliação dos Estados Unidos" que poderia "elevar ainda mais as tarifas sobre os produtos brasileiros".