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Energia no Brasil: preços cada vez mais influenciados por fontes renováveis e água armazenada.
Colunista
Publicado em 29 de agosto de 2025 às 15h00.
A formação de preços no setor elétrico brasileiro é particular: fortemente baseada na geração hidrelétrica, mas cada vez mais influenciada por fontes renováveis não despacháveis, como solar e eólica. O preço de curto prazo é calculado de forma horária pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), a partir de modelos que equilibram oferta e demanda. Nesse cálculo, o valor da água é central: o operador precisa decidir se compensa usar a energia armazenada em forma de água nos reservatórios agora ou preservá-la para o futuro. Essa escolha considera projeções de afluências (chuvas e vazões dos rios), custos das usinas térmicas e a curva de mérito econômico da oferta, que ordena o acionamento das diferentes fontes de menor para maior custo.
Na prática, solar e eólica — por serem fontes de custo marginal praticamente nulo e não controláveis pelo operador — têm preferência, sempre que estão disponíveis. Isso reduz a necessidade de despacho hidrelétrico em momentos de alta geração renovável, mas aumenta a complexidade do planejamento: quando o vento cessa ou o sol se põe, cabe às hidrelétricas e térmicas garantir a estabilidade do sistema.
Além disso, essas fontes afetam indiretamente o uso dos reservatórios. Durante o dia, a alta geração solar reduz a necessidade de despacho hidrelétrico, pressionando os preços para baixo. No entanto, com a queda brusca da produção ao entardecer, as hidrelétricas precisam rapidamente suprir a demanda, exigindo decisões estratégicas sobre o uso da água armazenada.
A geração eólica, com perfil muitas vezes complementar ao da solar, também contribui para essa dinâmica. Contudo, limitações na infraestrutura de transmissão podem impedir seu pleno aproveitamento, forçando maior acionamento das hidrelétricas e aumentando o valor da água na formação dos preços
Em condições normais, a abundância de água nos reservatórios mantém os preços baixos, pois a hidreletricidade é barata. Mas, em períodos de crise hídrica, como os enfrentados nos últimos anos, os níveis caem e o ONS precisa preservar a água para garantir o suprimento futuro. Isso implica maior uso de usinas térmicas, mais caras e poluentes, provocando a alta dos preços.
A operação também enfrenta restrições ambientais e legais. Muitas vezes, mesmo não havendo necessidade de geração hidrelétrica, não é possível armazenar a água, por conta de limites de vazão mínima a jusante (águas abaixo), necessidade de manter níveis de rios para navegação ou preservação de ecossistemas, além de usos múltiplos como irrigação e abastecimento.
Portanto, a dependência hidrológica ainda influencia fortemente o preço da energia no Brasil. Entretanto, com a expansão das eólicas e solares, a volatilidade dos preços — que antes possuía caráter mais sazonal — passa a apresentar um perfil intradiário. Assim, a possibilidade de uma crise hídrica vai além de uma questão ambiental: é um fator determinante para a dinâmica dos preços, para o custo para o consumidor e para a competitividade da economia brasileira.