Padovani: juros altos por mais tempo não favorecem fluxo de capital para o Brasil (BV/Divulgação)
Publicado em 4 de abril de 2025 às 06h30.
Última atualização em 4 de abril de 2025 às 06h34.
A percepção de que o Brasil se “saiu bem” na lista das tarifas de Donald Trump, anunciada na última quarta-feira, 2, pode ser temporária.
O país ficou na faixa mais baixa das alíquotas, com uma taxação de 10%, bem abaixo dos 24% do Japão ou dos 34% da China, que se somarão a outros 20% já impostos. O imposto menor, tende a impactar menos as exportações brasileiras aos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que o país pode se beneficiar e ganhar mais parceiros comerciais, ocupando o lugar de produtos norte-americanos.
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Nesta quinta-feira, 3, enquanto os mercados globais viveram dia de sangria, com as bolsas norte-americanas despencando e o dólar derretendo (a moeda americana caiu 1,20% ante o real e 1,61% contra moedas mais fortes), o Ibovespa conseguiu se manter estável, recuando apenas 0,04%.
Apesar da reação inicial positiva, o economista-chefe do BV, Roberto Padovani, acredita que o impacto real no país será mais complexo. “Rapidamente a leitura deve ser de que não são tão óbvios esses benefícios, porque o país será penalizado nos fluxos financeiros”, diz em entrevista ao INSIGHT.
Para Padovani, o aumento das tarifas pode gerar uma pressão inflacionária nos Estados Unidos, o que levaria o Federal Reserve (o Banco Central dos EUA) a manter os juros mais elevados por mais tempo. “Os EUA podem acabar tendo juros mais altos por mais tempo, o que não favorece os fluxos de capitais para os mercados emergentes, incluindo o Brasil.”
E, no caso brasileiro, o impacto financeiro é mais relevante do que a própria discussão comercial. Leia a entrevista de Padovani ao INSIGHT:
INSIGHT: O Brasil ficou na faixa mais baixa das alíquotas, com 10%. Isso fez muita gente ter a leitura de que o país saiu “vencedor” nessa lista de perdas que o tarifaço de Trump impôs, tanto que o Ibovespa não teve o banho de sangue do restante dos mercados globais. É isso mesmo?
Roberto Padovani: A reação de mercado nesta quinta, de alguma forma, refletiu a leitura de parte dos investidores e é positiva. Estamos vendo ingresso na Bolsa e o câmbio se valorizando. Existe a leitura de que, em termos relativos, fomos poupados. Isso acaba preservando o crescimento no Brasil. A reação inicial é positiva. Mas há ao menos três alertas importantes.
INSIGHT: Quais são eles?
Padovani: Primeiro, esse processo está no seu início, e não sabemos qual será o desenho final. Existe a possibilidade de que parte dessas alíquotas seja o começo de uma negociação, especialmente com a China, o que pode alterar o cenário. Portanto, as coisas ainda não estão estabilizadas. O segundo ponto é que o impacto comercial para o Brasil não é claro. Por um lado, as exportações brasileiras foram preservadas, com uma alíquota de 10%, mas há uma preocupação com o possível aumento de importações devido a desvios de comércio. Um exemplo disso seria a China, que pode exportar bens industriais para o Brasil, que antes eram destinados aos Estados Unidos. No curto prazo, o Brasil pode sofrer com uma redução de preços de bens industriais no mundo, o que geraria um efeito desinflacionário. E o terceiro ponto é que o Brasil pode ser beneficiado a médio prazo, caso a China deixe de exportar algum produto para os Estados Unidos, o Brasil pode ocupar esse espaço, mas isso ainda depende de como o comércio se reconfigura.
INSIGHT: Em um cenário mais longo, o Brasil poderia se beneficiar, mas no curto prazo, os impactos não são tão claros. É isso?
Padovani: O Brasil pode ser afetado por uma redução de preços de bens industriais no mercado global. No entanto, a maior preocupação é o impacto financeiro, que pode ser mais significativo. Se o mundo está ficando mais confuso e desacelerando, isso provavelmente levará a uma desaceleração do crescimento global.
INSIGHT: Por quanto tempo essa percepção deve se manter? Quando a análise pode mudar de lado?
É uma questão de timing. Essa leitura dos fluxos comerciais do Brasil ganhar mercado é a longo prazo. Quanto maior o grau de incerteza global, mais rápido o mercado sente os impactos financeiros desse cenário.
Hoje temos essa leitura de que o Brasil foi beneficiado pelas tarifas, mas rapidamente a leitura deve ser de que não são tão óbvios esses benefícios, porque o país será penalizado nos fluxos financeiros.
A visão vai mudar à medida que forem sendo divulgados dados de crescimento nos Estados Unidos. Nesta sexta-feira, por exemplo, sai um dado importante de desemprego do país. Se todos se convencerem que a economia norte-americana segue forte e começar a se formar um consenso de que a inflação norte-americana fica pressionada, vai reforçar um sinal que já está presente na comunicação do Banco Central norte-americano: o de cautela.
Hoje foi divulgada a ata do Banco Central Europeu, também uma ata cautelosa. Ao longo dos próximos dias, acho que o mercado tende a reavaliar essa leitura de recessão e corte de juros na economia norte-americana. É um fenômeno rápido. Nos próximos dias vai ficar claro o consenso em relação à inflação. Os EUA podem acabar tendo juros mais altos por mais tempo, o que não favoreceria os fluxos de capitais para os mercados emergentes, incluindo o Brasil.
INSIGHT: Esse movimento de depreciação do dólar, portanto, deve se reverter. A moeda americana vai manter esse papel de ativo de proteção em momentos de incerteza?
Padovani: Os ativos tradicionais de proteção, em momentos de estresse, são o ouro e o dólar. O dólar tende a se valorizar em momentos de incertezas, mesmo em um momento como o atual. Na crise bancária de 2008, por exemplo, o epicentro foi nos Estados Unidos, mas o dólar foi procurado como uma reserva de valor. Hoje, a principal razão para o fortalecimento do dólar é a pressão inflacionária nos Estados Unidos, que impede o corte de juros. A inflação norte-americana já está em 3%, distante da meta de 2%. Com isso, o Banco Central dos Estados Unidos provavelmente manterá os juros altos por mais tempo.
A rentabilidade dos investimentos nos EUA, combinada com a busca por proteção, atrai fluxos de capitais para o dólar. Por isso, acredito que o movimento de hoje, com bolsas caindo e o dólar fraco, pode ser revertido nas próximas semanas, à medida que mais dados sobre a economia dos EUA forem divulgados.
INSIGHT: Nesse contexto, qual o impacto da reação dos países?
Padovani: Em tese, se existisse um quadro de retaliação forte dos países, significa dizer que teria uma redução importante do comércio internacional, o que derruba o crescimento. O crescimento cai não só porque as exportações de cada país diminuem, reduz a produção em cada país, porque leva a uma inflação que consome a capacidade de consumo da população. Por qualquer ângulo que você olhe, isso é menos crescimento. A economia norte-americana é o principal mercado consumidor. Então, a força do consumo norte-americano impede ou desestimula que os países sejam muito agressivos na retaliação porque todos estão de olho nesse mercado. Vai ter um impacto assimétrico. Os Estados Unidos colocaram tarifas. Essas tarifas serão retaliadas em menor magnitude pelos outros países, ou talvez nem haja retaliação. Os países vão estudar os impactos com calma e tentar adotar medidas muito pontuais. No caso brasileiro, talvez não haja retaliação. O impacto de aumento de tarifa será muito mais forte nos Estados Unidos. O país, nesse sentido, teve sucesso na redução das importações, mas vai aumentar a inflação doméstica. Nas outras economias, o impacto é mais desinflacionário. As outras economias devem crescer menos, dado que há uma restrição a entrar no mercado norte-americano. A Europa e a Ásia vão exportar menos. Vejo como um quadro de desaceleração global associado à inflação norte-americana, mais resistente, e, portanto, juros mais altos nos Estados Unidos. Essa combinação nunca foi favorável a fluxo de capitais para mercados emergentes. No caso brasileiro, o impacto indireto é mais importante que a discussão comercial.