Inteligência Artificial

Seu próximo romance pode ser com uma IA

Aplicativos como Tinder, Blush, Rizz e Teaser apostam na inteligência artificial para resolver dilemas de flerte. Mas até que ponto a tecnologia ajuda — ou mascara — o que está em crise?

Miguel Fernandes
Miguel Fernandes

Chief Artificial Intelligence Officer da Exame

Publicado em 5 de abril de 2025 às 14h21.

Última atualização em 5 de abril de 2025 às 15h27.

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O Tinder lançou uma nova funcionalidade baseada em IA que avalia o desempenho dos usuários ao flertar com bots (The Game Game). Isso é parte de uma tendência ainda mais profunda que cresce silenciosamente: homens que preferem se relacionar mais com inteligências artificiais do que com pessoas reais.

A ideia do novo recurso do Tinder é simples: você interage com um simulador de situações de paquera, e a IA te dá um “score” de quão bem ou mal você se saiu. Depois, recomenda frases de abertura, perguntas de aprofundamento e até ajuda a marcar um encontro. Tudo gamificado, para o usuário ficar mais tempo engajado (e assinando as versões pagas, claro).

A pergunta que não saiu da minha cabeça foi: isso ajuda ou atrapalha? Por um lado, soluções de IA podem destravar a timidez de muita gente, sobretudo quem nunca teve coragem de abordar alguém pessoalmente. Por outro lado, será que elas não reforçam a “muleta” digital? Em vez de encorajar a pessoa a encarar a rejeição (ou a aceitação) de forma real, a IA pode criar um ambiente falso de aprovação.

Segundo o especialista Thiago Schutz, que já escreveu cinco livros sobre o universo masculino, esse fenômeno está ligado a uma crise mais ampla de identidade. “Tem muito homem que não sabe lidar com a rejeição, que foi rejeitado a vida inteira”, afirma. “Para alguns, o único caminho possível vai ser se relacionar com um robô.”

Aplicativos como Blush (da Replika), Teaser e Rizz já captaram essa demanda. Todos usam IA para simular interações afetivas — com direito a conselhos, elogios e "química sintética". O problema, como lembra Thiago, é que “a IA nunca vai replicar o cheiro, o calor, ou até mesmo as brigas de um relacionamento real”.

Leia minha última coluna: IA e o fim da criatividade

Tecnologia e solidão masculina

Dados recentes apontam que mais de 60% dos homens abaixo de 30 anos nos EUA estão solteiros — muitos deles nunca sequer abordaram uma mulher presencialmente. Thiago, que já viveu a transição do flerte “olho no olho” para o digital, diz que a tecnologia facilita a quantidade, mas empobrece a profundidade. “Hoje o cara toma um 'ghosting' e não entende o porquê. Isso fragiliza, porque o homem precisa de feedback em tempo real.”

O paradoxo do Tinder com IA

A iniciativa recente do Tinder de oferecer um "jogo de flerte com IA" pode parecer inofensiva — e até divertida —, mas revela o esforço das plataformas para reverter a queda de engajamento. Se antes o problema era começar uma conversa, hoje o desafio é manter o interesse em se relacionar com humanos. Como lembrou Schutz na entrevista, “não adianta o bot te dizer a melhor cantada se, no encontro real, você trava”.

O risco? Criar uma geração de homens emocionalmente despreparados para lidar com frustração, rejeição ou simplesmente com a imperfeição do outro.

Para onde vamos?

Thiago é direto: “IA é ótima para gerar imagem, legenda, até roteiro de vídeo. Mas quando o assunto é amor, autenticidade ainda ganha.” Ele acredita que a tecnologia pode, sim, ajudar — desde que seja ponte, não muleta.

Nesse cenário em que algoritmos definem o crush, e bots dão nota no seu charme, talvez o maior desafio da IA não seja ensinar a flertar, mas ajudar os homens a entenderem a si.

Assista minha entrevista completa com o Thiago abaixo:

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