Publicado em 3 de abril de 2025 às 00h03.
Última atualização em 3 de abril de 2025 às 06h37.
O Brasil foi um dos países menos taxados pelo governo americano – e, numa análise relativa, saiu ‘vencedor’ em meio ao tarifaço sem precedentes anunciado ontem por Donald Trump no seu “Dia da Libertação”.
Mas a verdade é que o panorama geral das tarifas anunciadas pelos Estados Unidos foi muito pior do que o cenário mais pessimista. Trata-se de um rearranjo de todo o processo de globalização que pautou o mundo nas últimas décadas.
E pior: em vez de aliviar as incertezas que vem rondando os mercados desde o início do governo Trump, adicionou uma camada espessa de dúvidas.
“Acreditamos que o mercado espera tarifas sobre produtos selecionados, mas tarifas generalizadas serão uma surpresa negativa", tinha escrito a equipe do Bank of America Merrill Lynch (BofA) em relatório.
E que surpresa! Na prática, a tarifa média dos EUA deve subir de aproximadamente 5% para pouco mais de 20%, um patamar que não é visto pelo menos desde 1936, segundo o Bradesco BBI.
Nesse sentido, o efeito imediato será de um sell-off, ou venda generalizada de ativos de risco. “Os asiáticos devem sofrer muito mais, mas não acho que Brasil e México escapem da queda, ainda que em menor magnitude”, diz um gestor de um grande fundo brasileiro.
No mundo, os mercados reagiram com forte queda nas negociações pós-mercado e nos futuros das bolsas americanas. Na China, os mercados estão fechados, mas no Japão, o principal índice da bolsa recuava mais de 5%. O VIX, índice do medo, disparou e o ouro, reserva de valor para tempos de incerteza, renovou os recordes.
Já o EWZ, ETF das principais ações brasileiras em negociado em Nova York, chegou a bater queda 2%, mas fechou mais perto da estabilidade.
Olhando mais fora do imediatismo do anúncio, no entanto, uma recessão na economia americana – que vem sendo precificado pelo mercado -- tende a provocar um movimento maior de rotação para mercados emergentes, especialmente aqueles menos afetados pelo anúncio, como o Brasil e o México, que foi poupado ao menos por ora.
“Com essas tarifas, a tese do excepcionalismo americano, que era onde estava o crescimento, definitivamente ficou para trás”, acrescenta o gestor. “É inflação na veia, atividade para baixo e um recuo muito grande na confiança, tanto do empresário quanto do consumidor, em meio a tanta confusão.”
Em números: nas contas do Bradesco BBI, a economia norte-americana pode sofrer um impacto de 1 ponto percentual a mais de inflação neste ano. Em relação ao PIB, os exercícios sugerem um impacto de 1,5 p.p. negativo.
De acordo com Bradesco BBI, o impacto do anúncio para as exportações brasileiras aos EUA é marginal. “Como estamos no mínimo, nem perder exportações parece razoável. Saímos ilesos no macro”, diz o time do banco em nota enviada logo após o discurso do presidente americano.
Para o economista André Perfeito, o anúncio das tarifas “saiu barato” para o Brasil, o que pode ser explicado pelo déficit na balança comercial: importamos mais do que exportamos para os EUA.
Esse fluxo comercial entre os dois países, diz ele, ajuda o real a sofrer pouco diante do impacto da medida para o dólar.
Segundo André Valério, economista sênior do Inter, o efeito líquido das tarifas pode ser positivo, especialmente se houver retaliação por parte da China e da Europa.
“O Brasil tende a ganhar market share de suas exportações, à medida que essas regiões direcionem suas demandas para outro lugar, particularmente o agro, que sofre grande competição com o agro americano”, diz.
Além disso, o fato de o Brasil ter sido menos taxado tornará os nossos produtos relativamente mais competitivos em relação aos outros países, o que pode permitir maiores exportações também aos Estados Unidos, aponta o economista.
De acordo com ele, hoje o elevado diferencial de juros entre a economia brasileira e a americana tem dado suporte para uma apreciação do real frente ao dólar. “Atualmente, o real é uma das moedas favoritas dos investidores justamente por conta desse fato, com as posições vendidas em dólar contra o real sendo a maior aposta contrária à divisa americana.”