O pacote de tarifas recíprocas anunciado ontem pelo presidente americano Donald Trump marca uma mudança de proporções históricas no comércio global. (Brendan Smialowski/AFP)
Repórter de Mercado Imobiliário
Publicado em 3 de abril de 2025 às 10h24.
Última atualização em 3 de abril de 2025 às 10h53.
Embora Donald Trump tenha anunciado tarifas recíprocas pretendendo proteger a economia dos Estados Unidos, por ora, a leitura é de que o país será o principal prejudicado. Por volta das 10h, o DXY, que mede o desempenho do dólar frente a outras moedas, caía 1,90%.
Os investidores estão correndo para outros países. O dólar cai mais de 1,5% em relação ao euro e ao iene, e mais 1% em relação à libra esterlina.
O gringo voltou? Gestores do 'Big Short' fazem aposta no BrasilA queda fez com que o Citi recomendasse uma posição longa no euro. Os estrategistas do banco esperam que o dólar atinja seu nível mais fraco desde outubro de 2021.
Analistas concordam que, daqui para frente, a dinâmica do dólar vai depender do que prevalecerá em respostas às tarifas. As primeiras reações do mercado apontaram que a visão é de que elas colocarão a economia americana em direção à recessão, com os juros de 10 anos recuando fortemente.
Na visão de André Valério, economista sênior do banco Inter, se a economia americana absorver bem o choque, a tendência é que o dólar se valorize de maneira global. “Se o impacto das tarifas for extenso, criando incertezas e desaceleração da economia, ao passo em que os Estados Unidos se isolem do resto do mundo, a tendência é observar a continuidade do movimento de depreciação do dólar”.
Mas o que vem se provando é o contrário. “De fato, as tarifas anunciadas foram muito mais fortes do que o que havia sido ventilado durante a semana”, analisa.
O comportamento do dólar hoje também reflete a volta de 180 graus que as tarifas de Trump colocam sobre a ordem que pautou o mundo no pós-guerra, e do qual os Estados Unidos foram os maiores beneficiários.
Normalmente em tempos de incertezas e aversão ao risco generalizada, investidores corriam para o dólar como um porto seguro. Assim como a globalização, esse é mais um dogma que pode ser colocado por terra.
Pela manhã, o Deutsche Bank alertou sobre o risco de uma crise de confiança no dólar americano, dizendo que grandes mudanças nas alocações de fluxo de capital podem assumir o controle dos fundamentos da moeda e os movimentos cambiais se tornarão desordenados.
O real, em meio a isso, deve sofrer pouco, afirma Valério, do Inter. Hoje, o dólar tem forte queda frente a divisa brasileira, negociado em baixa de 1,44%, a R$ 5,616.
Para o analista, o impacto sobre a balança comercial brasileira deve ser pequeno, já que o fluxo comercial do Brasil com os Estados Unidos não é o mais relevante. Alguns setores específicos, mas que não são altamente representativos na balança comercial, devem sofrer.
"Por outro lado, o efeito líquido das tarifas pode ser positivo, especialmente se houver retaliação por parte da China e da Europa. O Brasil tende a ganhar market share de suas exportações, à medida que essas regiões direcionem suas demandas para outro lugar, particularmente o agro, que sofre grande competição com o agro americano", analisa.
O analista afirma que que fato de o Brasil ter sido menos taxado torna os seus produtos relativamente mais competitivos em relação aos de outros países, o que pode resultar em maiores exportações aos Estados Unidos.
"Além do movimento global do dólar, o real se beneficia do elevado diferencial de juros entre a economia brasileira e americana, sendo um destino atrativo para parte desse fluxo. Com o movimento de queda nos juros de 10 anos, esse fator se torna ainda mais significativo, ampliando o diferencial, o que deve permitir um alívio nas nossas taxas, devido à atratividade do real nesse cenário", finaliza.
O fato é que o mundo mudou seu eixo em poucos meses e visões antes fora do consenso estão se materializando.
Conforme trazido por Vincent Daniel, um dos contrarians mais notórios dos Estados Unidos por sua aposta precoce contra as hipotecas americanas em 2008, no começo do ano uma indústria americana forte como quer Donald Trump demanda um dólar fraco e não o contrário.
“Se quisermos internalizar tantos empregos e fábricas [nos Estados Unidos], vamos precisar de um dólar mais fraco para vender nossos produtos para outros países a um preço mais barato”, disse à época.
“E se isso acontecer, o que acontece com os mercados emergentes?”, ponderou, sugerindo um fluxo relevante de recursos para mercados até então relegados pelos investidores. Nesse sentido, é uma boa notícia para os ativos de risco brasileiro, muito depreciados.