O presidente dos EUA, Donald Trump, ao assinar ordem executiva que implanta tarifas (Andrew Harnik/AFP)
Repórter de macroeconomia
Publicado em 3 de abril de 2025 às 06h01.
O pacote de tarifas recíprocas anunciado pelo presidente americano Donald Trump, na quarta-feira, 2, marca uma mudança de proporções históricas no comércio global, marcado nas últimas décadas por esforços para reduzir tarifas e ampliar a livre circulação de produtos.
De uma só vez, os EUA implantaram tarifas em quase todos os países do mundo, sendo que a China, um de seus maiores parceiros comerciais, foi alvo de uma das tarifas mais elevadas e terá 54% de taxas. Mais de 160 países serão taxados em ao menos 10%, incluindo o Brasil.
"Ele simplesmente jogou uma bomba nuclear no sistema de comércio global", disse Ken Roggoff, ex-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), à BBC.
Para um diplomata europeu ouvido pela Sky News, sob anonimato, "os EUA estão fazendo um brexit do mundo", em referência ao movimento abrupto de saída do Reino Unido da União Europeia, aprovado em 2016.
Para Olu Sonola, chefe de pesquisa econômica nos EUA na agência Fitch, a mudança terá efeitos globais. "Muitos países vão terminar em uma recessão", disse, à BBC.
Nos EUA, entidades setoriais e políticos tiveram posicionamentos diferentes. A Associação Nacional de Restaurantes (NRA) disse estar preocupada de que as tarifas poderão elevar os preços, pois haverá aumento nos custos com embalagens e incertezas sobre o fornecimento de ingredientes vindos do exterior.
"Muitos restaurantes usam o máximo de ingredientes domésticos que podem, mas simplesmente não é possível para os fazendeiros americanos produzirem o volume necessário para a demanda", disse Michelle Korsmo, presidente da NRA.
A Associação Nacional de Varejistas (NRF) também criticou a medida. "Mais tarifas são iguais a mais ansiedade e incertezas para consumidores e negócios americanos", disse David French, vice-presidente da entidade.
O ex-vice-presidente Mike Pence, ex-aliado de Trump, disse que este foi o maior aumento de tarifas da história dos EUA em tempos de paz e algo não visto desde a década de 1930. Ele estima que a medida poderá custar US$ 3.500 por ano às famílias americanas, pois os custos das taxas poderão ser repassados aos consumidores finais.
Do outro lado, a medida foi celebrada pelo Instituto Americano de Aço e Ferro, que elogiou Trump por "se levantar pelos trabalhadores americanos. O presidente diz que a medida gerará empregos, ao estimular indústrias a voltarem a produzir nos EUA.
A consultoria Exiger calculou que as tarifas poderão trazer US$ 600 bilhões em impostos para os EUA. Trump diz que as tarifas também ajudarão o país a conter o déficit nas contas públicas, que foi de US$ 1,8 trilhão em 2024.
Com a mudança atual, os EUA passarão a ter o maior volume de tarifas em quase um século e reverterão uma política externa de décadas.
"Este é um momento bastante crítico, no sentido de impedir que se volte à Lei da Selva pré-Segunda Guerra Mundial", diz Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da consultoria BMJ.
A partir dos anos 1940, o país usou sua posição de maior economia global para defender o livre comércio e a redução de tarifas de importação, para abrir mercados.
Com isso, o mundo foi se tornando cada vez mais integrado, e a produção globalizada. Assim, itens como carros ou celulares são feitos com peças vindas de várias partes do mundo, pois elas podem circular facilmente.
Neste processo, os EUA se mantiveram como maior potência global ao apostar em uma estratégia de criar tecnologias de ponta dentro do país, mas fabricar esses novos produtos em outros lugares com custos menores, especialmente na China.
Ao mesmo tempo, no entanto, os americanos viram indústrias deixarem o país e fecharem fábricas, o que gerou ressentimento, especialmente em cidades do interior do país que dependiam delas e entraram em crise no final do século 20.
Muitos moradores dessas cidades se tornaram eleitoras de Trump, que defende uma volta a uma América do passado, onde empregos industriais eram uma opção abundante.
Trump usa as tarifas como forma de tentar atrair indústrias de volta aos Estados Unidos. Ele diz esperar que as tarifas levarão o país a uma nova era dourada de prosperidade.
Economistas, no entanto, ponderam que as tarifas trazem risco de aumentar a inflação no país, pois os gastos extras provavelmente acabarão sendo repassados ao preço final, e de gerar uma recessão. As medidas poderão dificultar a produção de fábricas que dependem de peças importadas e ainda geram um clima de incerteza, o que reduz investimentos.