Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil (Divulgação)
Repórter de macroeconomia
Publicado em 4 de abril de 2025 às 06h01.
As tarifas recíprocas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, terão alto impacto, mas ainda poderão ser alteradas, o que torna o cenário ainda muito incerto. A avaliação é de Abrão Neto, CEO da Amcham (Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos).
"Não é um cenário definitivo. A própria medida sinaliza o espaço para que essas tarifas possam tanto crescer ou reduzir, individualmente com cada país, a depender do resultado dos engajamentos dos Estados Unidos com esses países", diz Neto. "É um cenário que se movimenta em ritmo diário."
A Amcham tem sido uma das principais entidades que atuam junto ao governo brasileiro para ajudar nas negociações tarifárias com o governo americano. Abrão conta que, entre os temas negociados, estão minerais críticos, propriedade intelectual e comércio eletrônico. Veja a seguir a entrevista que ele deu para a EXAME.
Como o senhor avalia o impacto das tarifas recíprocas?
O anúncio de ontem foi de uma medida de alto impacto, que tem desdobramento em várias dimensões. O primeiro é macroeconômico. Qual vai ser o impacto dessas medidas na economia americana e na economia mundial. Isso tem impactos diretos nos principais fundamentos brasileiros, por exemplo, juros, capital, entre outros. O segundo impacto é nas exportações brasileiras. Um aumento de 10% cria desafios consideráveis para as exportações brasileiras, mas é uma análise que precisa ser feita também do ponto de vista relativo. O Brasil teve a tarifa mínima, enquanto outros países tiveram percentuais muito maiores. Tem ainda uma terceira dimensão relacionada à própria recuperação do comércio internacional. Os Estados Unidos são o maior mercado consumidor do mundo. Vários países e fornecedores terão menos competitividade lá e vão buscar redirecionar as suas exportações para outros mercados. Isso pode afetar o mercado brasileiro, no sentido de um aumento grande de importações, que também vão chegar a outros países da América Latina e aumentar bastante a concorrência para exportadores brasileiros.
Quais deverão ser os próximos passos nas negociações com o governo americano?
A avaliação da Amcham é que é importante é que os governos do Brasil e dos Estados Unidos intensifiquem o diálogo e as negociações, buscando soluções, é, para fortalecer comércio. As empresas querem mais comércio e os investimentos. Nosso pedido é para que os dois governos se engajem. Essas conversas já estão acontecendo há algumas semanas, com bastante empenho para buscar soluções, respostas e acordos para criar mais comércio.
Quais são os temas que podem ser negociados entre os dois países?
Considerando o tamanho e a importância da relação econômico-comercial entre Brasil e Estados Unidos, há uma diversidade grande de temas que interessam aos dois lados. Não é uma discussão meramente de se encontrar questões específicas no mercado brasileiro. Isso está na mesa, mas, além disso, há temas que podem ser discutidos entre os dois países. Minerais críticos são um exemplo. O Brasil tem interesse de se desenvolver sua capacidade de processamento, de mapear as reservas e processar parte desses recursos aqui no Brasil. Os Estados Unidos, por outro lado, têm interesse em fornecedores confiáveis.
Que outros temas podem ser abordados?
Existe uma série de mecanismos na área de propriedade intelectual e combate a violações a esses direitos aqui no Brasil, que é algo de interesse dos dois países. É um tema que poderia ser intensificado. O acordo que o Brasil firmou com os Estados Unidos em 2020, no primeiro mandato do Trump, poderia ser expandido para cobrir outras áreas, como o comércio eletrônico. Existem agendas positivas de interesse comum que poderiam ser trazidas para essa discussão de maneira a ampliar o escopo do que tá sendo discutido e criar mais convergência entre os dois governos.
Poderia detalhar mais sobre qual será o impacto das tarifas para o comércio entre Brasil e Estados Unidos?
Esta análise que precisa ser feita olhando o comportamento dinâmico do mercado. Não basta olhar só o impacto para as exportações brasileiras, porque elas concorrem no mercado americano com diversos outros players afetados de inúmeras maneiras. Existe um elemento adicional nessa análise: estamos comentando um cenário definido agora, mas não o cenário definitivo. A própria medida anunciada ontem sinaliza o espaço para que essas tarifas possam tanto crescer ou reduzir, individualmente com cada país, a depender do resultado dos engajamentos dos Estados Unidos com esses países. Uma análise nesse momento com o cenário tão em movimento seria muito incipiente. Ontem se confirmou a imposição de sobretaxas no setor automotivo e há diversos outros setores em que o governo americano tem indicado que caminhará nessa direção, como produtos de madeira, cobre. É um cenário que se movimenta em ritmo diário.
Quais serão as próximas ações da Amcham para ajudar nas negociações?
Estamos atuando de várias maneiras. Primeiro, ajudando as empresas a entenderem a extensão e a mecânica dessas medidas, para que elas possam navegar nesse novo cenário. Estamos em um constante diálogo com o governo brasileiro e americano, no sentido de encorajar um relacionamento construtivo, entendendo as demandas e as sensibilidades de lado a lado. A solução passa por uma negociação constante entre os dois governos. O objetivo é encontrar soluções para reduzir as tarifas e promover mais comércio. A negociação será mais eficaz se houver uma ampla gama de temas na mesa, permitindo um equilíbrio mais amplo que satisfaça ambos os lados. Isso pode aumentar a probabilidade de um acordo que leve à redução das tarifas e ao restabelecimento de um comércio mais fluido entre Brasil e Estados Unidos.