Em uma postagem na Truth Social, o presidente dos Estados Unidos pediu que “todas as companhias aéreas, pilotos, traficantes de drogas e traficantes de pessoas considerem o espaço aéreo acima e ao redor da Venezuela totalmente fechado” (Roberto Schmidt / Correspondente/Getty Images)
Repórter
Publicado em 29 de novembro de 2025 às 11h40.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a tensionar a relação com a América Latina neste sábado, 29. Em uma postagem na Truth Social — rede social da qual é dono — ele pediu que “todas as companhias aéreas, pilotos, traficantes de drogas e traficantes de pessoas considerem o espaço aéreo acima e ao redor da Venezuela totalmente fechado”.

A frase, curta e sem detalhamento operacional, reacendeu temores sobre o que Washington pretende fazer no país vizinho, que possui as maiores reservas de petróleo do mundo.
Para Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP e da FGV, o alerta de Trump “não é um simples aviso aeronáutico — é um sinal político de grande magnitude”.
A ideia de ‘no-fly zones’ (ou zona de exclusão aérea) costuma estar associada à preparação para uma operação militar mais robusta, afirma Vieira. “E ela pode ser tanto por terra ou por ataques aéreos”, afirma.
Trata-se de uma área em que voos civis ou militares são proibidos, normalmente imposta por um país ou por uma coalizão militar para controlar o espaço aéreo de outro território. No entanto, o professor observa que não há registro histórico de um presidente americano de emitir publicamente um aviso dessa natureza sobre um país da região, sem coordenação com organismos multilaterais ou aliados.
“Na prática, Trump indica que está disposto a violar a soberania de qualquer país, inclusive na América Latina. É a continuidade da Doutrina Monroe, 202 anos depois de sua criação”, diz.
A Doutrina Monroe foi anunciada em 1823 pelo então presidente dos Estados Unidos, James Monroe. Ela estabelecia o princípio de que as Américas deveriam ficar livres de interferência europeia. Seu lema ficou famoso: “América para os americanos.” Na prática, porém, esse discurso ganhou outra leitura ao longo do tempo: “América para os norte-americanos.”
O professor também cita o corolário Roosevelt que, no início do século 20, ampliou o desenho original da Doutrina Monroe e previu intervenções diretas dos Estados Unidos na região.
Em resumo, o corolário estabelecia:
“Se um país não controla seu espaço aéreo — ou se outra potência o controla — ele deixa de ser soberano. A mensagem de Trump é: todos estamos na mira.”
O alerta público não deve ser minimizado, segundo especialista da FAAP e da FGV.
“Estamos à beira de uma guerra em um de nossos principais vizinhos, com consequências imprevisíveis para toda a região”, afirma.
O professor compara o risco ao que aconteceu no Oriente Médio. “Podemos ter um novo Iraque — só que agora do nosso lado.”
Qualquer justificativa de combate ao narcotráfico, segundo o professor, seria apenas a face visível de uma disputa muito maior. “Seria uma guerra em nome do combate às drogas, mas cujo fim real é ampliar o acesso às reservas de petróleo venezuelanas.”