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Eleições em Honduras são marcadas por interferência de Trump e empate triplo

Votação no país neste domingo ocorre em cenário de empate nas pesquisas e risco de ruptura

Propaganda eleitoral do candidato de direita hondurenho Nasry Asfura, em Honduras (Orlando Sierra/AFP)

Propaganda eleitoral do candidato de direita hondurenho Nasry Asfura, em Honduras (Orlando Sierra/AFP)

Publicado em 30 de novembro de 2025 às 06h01.

O narcotráfico, que interfere na política, as forças armadas próximas da esquerda no poder e a cruzada anti-imigrantes do presidente americano Donald Trump, são os temas centrais das eleições de Honduras, marcadas para este domingo, 30.

O pleito ocorrerá em um clima de tensão, pois os três candidatos favoritos à Presidência - os direitistas Salvador Nasralla (Partido Liberal, PL) e Nasry Asfura (Partido Nacional, PN), e a esquerdista Rixi Moncada (Partido Libre, no poder) - trocam acusações de planejar fraude e estão estatisticamente empatados nas pesquisas.

Além do presidente, os hondurenhos também elegerão deputados e prefeitos para os próximos quatro anos. Veja a seguir os candidatos, suas propostas, as tensões eleitorais e o apoio de Trump.

Nasry Asfura

Nasry Asfura, candidato à presidência de Honduras pelo Partido Nacional. (Emilio Flores/AFP)

Aos 67 anos, Asfura concorre pela segunda vez após perder para Xiomara Castro como candidato do PN, partido marcado pela condenação do ex-presidente Juan Orlando Hernández nos Estados Unidos por narcotráfico.

"É agora ou nunca", diz o candidato, empresário da construção civil, com estudos de engenharia incompletos.

De raízes palestinas, foi prefeito de Tegucigalpa, onde nasceu, por dois mandatos, entre 2014 e 2022, durante os quais construiu pontes e túneis para descongestionar a caótica capital hondurenha.

O presidente americano Donald Trump o apoiou na rede social Truth Social: “Espero que o povo de Honduras vote pela Liberdade e Democracia e eleja Tito Asfura como Presidente!”, adicionando que o candidato seria o “único real amigo da liberdade em Honduras”.

Além disso, Trump afirmou que "não poderia trabalhar" com Rixi, do partido governista Libre, e que não confia em Nasralla, do Partido Liberal.

O presidente americano comparou o destino de Honduras ao da Venezuela, onde ele não descarta uma intervenção militar mas deixou a porta aberta para um diálogo com o presidente Nicolás Maduro. "Maduro e os narcoterroristas vão tomar outro país?", publicou Trump, ao se referir às eleições hondurenhas.

Durante sua campanha, Asfura julgou o investimento no setor privado necessário para mover a economia do país para frente, e sua agenda política é centrada em emprego, educação e segurança. Quando questionado sobre ser um representante da extrema-direita, Asfura diz: “Extremos não funcionam [...] devemos buscar equilíbrio. As pessoas não ligam se você é feio ou bonito, de esquerda ou direita, verde, vermelho ou azul; o que elas querem são soluções.”

Foi acusado de desvio de fundos e apareceu na lista do "Pandora Papers" de empresas offshore que sonegavam impostos. Todavia, nenhum caso prosperou judicialmente.

Costuma vestir camisas azuis claras e calças jeans, e cumprimenta com sua frase popular: "Papi, às ordens!".

Rixi Moncada

Rixi Moncada, candidata à presidência de Honduras pelo Partido Libre, atualmente no poder. (Orlando Sierra/AFP)

Moncada, de 60 anos, é ligada ao projeto esquerdista do ex-presidente Manuel Zelaya - deposto em 2009 - e de sua esposa, a atual presidente Xiomara Castro, a quem seus opositores chamam de "grande família" porque vários de seus parentes ocuparam cargos de poder, o que atrai críticas à candidata.

Nascida na cidade de Talanga, a 40 km de Tegucigalpa, capital do país, trabalhou como professora, advogada, juíza e conselheira eleitoral.

"Somos a grande família", afirma a candidata, que usa a alcunha para se referir ao "povo" ao qual diz pertencer. “Nossa luta contra a corrupção é de frente e sem medo. Para reformar o sistema de justiça, só tem um caminho: atingir a maioria no Congresso”, disse Moncada durante sua campanha.

Durante sua candidatura, ela criticou as "elites" econômicas, das quais promete cobrar impostos. Sua admiração declarada pelos "povos" de Cuba e de Venezuela alimentou ataques de seus rivais. Prometeu “democratizar a economia” ao expandir créditos, fortalecer a produção nacional e construir um modelo econômico que crie “oportunidades reais para todos”.

No governo de Castro, primeira mulher presidente de Honduras, foi ministra da Economia e da Defesa; e no de Zelaya, do Trabalho. Foi acusada de corrupção ao dirigir a empresa estatal de eletricidade durante o governo de Zelaya. As acusações foram depois rejeitadas pela Justiça.

Salvador Nasralla

Candidato à presidência de Honduras pelo Partido Liberal Salvador Nasralla. (Orlando Sierra/AFP)

Narrador de futebol, apresentador de concursos de beleza e estrela da televisão local com mais de 40 anos de carreira na área, Nasralla foi candidato presidencial três vezes por partidos diferentes. Admira o presidente da Argentina, Javier Milei, pela gestão da economia, e o de El Salvador, Nayib Bukele, por sua política de segurança. "Vou copiá-lo para que em Honduras não haja extorsão e as pessoas possam andar tranquilas", afirmou.

Nasralla concorreu em 2013 por um partido do qual foi cofundador, e terminou em quarto. Tentou novamente em 2017, à frente de uma coalizão, e conseguiu o segundo lugar em eleições intensas e marcadas por acusações amplas de fraude. Embora tenha feito parte do governo de Castro em 2022, com um cargo equivalente ao de vice-presidente, Nasralla, de 72 anos, rompeu com a ideologia no poder no ano passado.

"O povo não quer comunismo", repetiu durante a campanha Nasralla, prometendo recuperar a agricultura, combater o narcotráfico e a corrupção e fazer em quatro anos o que outros não fizeram "em 200".

Eleições tensas

Policiais militares fazem a guarda na entrada do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) durante a entrega de material eleitoral em Tegucigalpa, em 28 de novembro de 2025, antes da eleição presidencial de 30 de novembro. (Marvin Recinos/AFP)

Tanto a Organização de Estados Americanos quanto o Departamento de Estado dos Estados Unidos expressaram preocupações com o processo eleitoral e disseram que estariam monitorando as eleições de perto, que serão decididas por um simples voto de maioria. Com as pesquisas acirradas, analistas políticos temem que mais de um candidato clamará a vitória, independentemente dos resultados oficiais.

"Isso pode provocar distúrbios nas ruas, e as instituições que deveriam estar clamando por certeza, sanidade e prudência não estão ajudando nesse sentido", disse à Reuters o analista político Henry Salinas, falando da capital Tegucigalpa.

Os candidatos se atacam: concorrendo pela esquerda, Moncada com frequência se refere aos candidatos pendentes à direita Nasralla e Asfura como “bonecos da oligarquia”, enquanto eles a declaram “comunista”, criticando suas conexões com Venezuela e Cuba. Mesmo assim, os candidatos ainda não apresentaram planos concretos para lidar com a corrupção e pobreza que afligem o país.

Além disso, muitos ex-presidentes e parlamentares enfrentam problemas na justiça dos Estados Unidos, com Juan Orlando Hernandez, do Partido Nacional, que teve dois mandatos consecutivos de 2014 a 2022, atualmente detido nos EUA, sob convicção de tráfico de drogas.

Na rede social X, antigo Twitter, o vice-secretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, disse que os Estados Unidos estariam “monitorando a situação de perto” e convocou “as autoridades eleitorais e o exército para aderirem fielmente às leis e à Constituição de Honduras.” Adiciona que os EUA “responderiam rapidamente e decisivamente a qualquer um que prejudique a integridade do processo democrático.”

Internamente, o escritório da procuradoria geral do partido Libre, incumbente, acusa a oposição de planejar fraudes eleitorais, uma acusação que negam. Por sua vez, dizem que o Libre estaria tentando manipular o povo. Além disso, apresentam gravações de áudio que supostamente revelam conversas entre um membro de alto ranque no Partido Nacional e um militar não identificado sobre influenciar as eleições. As gravações, que o PN diz terem sido feitas com inteligência artificial, se tornaram fundamentais para a campanha de Moncada.

“Se eles tentarem nos tocar ou cometer fraude, verão nossa erupção ser como o maior vulcão da história,” disse a candidata da esquerda durante um evento eleitoral nesse mês.

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