Vazamento de planos: país se viu diante da pressão da oposição democrata por investigações e punições (AFP)
Agência de notícias
Publicado em 26 de março de 2025 às 07h00.
Última atualização em 26 de março de 2025 às 07h06.
Um dia após a revelação de que o editor-chefe da revista The Atlantic foi incluído por engano em um grupo de mensagens de membros do alto escalão do governo do presidente Donald Trump que discutiu um sigiloso plano para um ataque dos EUA à milícia houthi no Iêmen, o país se viu na terça-feira, 25, diante da pressão da oposição democrata por investigações e punições, e uma “operação abafa” por parte da Casa Branca.
O descontentamento com o que muitos consideram ser um dos mais graves vazamentos na história recente do país ficou evidente durante uma sessão da Comissão de Inteligência do Senado, que recebeu a diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, e o diretor da principal agência de inteligência dos EUA, a CIA, John Ratcliffe — segundo o relato de Jeffrey Goldberg, o editor-chefe da The Atlantic, ambos estavam no grupo que deveria reunir apenas membros do alto escalão. A sessão foi marcada para discutir ameaças aos EUA, mas foi dominada pela denúncia.
Gabbard, uma ex-pré-candidata democrata à Presidência convertida ao trumpismo, tentou se esquivar das perguntas sobre sua participação no grupo — ela estaria identificada pelas iniciais de seu nome, segundo Goldberg —, e que não queria discutir o assunto porque ele estava sob investigação dos serviços de inteligência.
Em uma das raras concessões aos senadores, disse que a conversa não trazia detalhes específicos sobre os ataques aos houthis, mas sim aspectos mais generalizados sobre uma eventual ofensiva militar. Sob pressão, Gabbard declarou que a pessoa mais adequada para responder sobre o sigilo das informações era o secretário de Defesa, Pete Hegseth.
A explicação não convenceu os presentes.
"Vidas americanas poderiam ter sido perdidas", disse o senador democrata Mark Warner, vice-presidente da comissão.
Ratcliffe admitiu participar do grupo, mas garantiu que sua participação na conversa foi “totalmente permitida e legal e não incluía informações confidenciais”. Em uma discussão mais acalorada com outro senador democrata, disse que a CIA tem regras para o manuseio de informações confidenciais, negou ter uma ideia formada sobre o jornalista, um algoz de Donald Trump, e concordou que a inclusão de Goldberg no grupo foi inapropriada.
O democrata Michael Bennett, do Colorado, não gostou das respostas.
"Quero dizer, esses caras vêm aqui, e eles são os chefes das agências de inteligência, os chefes da CIA, e eles estão dizendo que não há nada de errado com o que eles fizeram", afirmou após a audiência.
Também presente à sessão, o diretor do FBI, a polícia federal americana, Kash Patel, não confirmou se será aberta uma investigação sobre o incidente, e disse “não se lembrar” se já participou de alguma discussão similar em aplicativos de mensagens.
De acordo com Goldberg, há cerca de duas semanas ele recebeu uma solicitação de contato no aplicativo de mensagens Signal de uma pessoa que se apresentava como Michael Waltz. Ele achou que poderia ser algum assessor do conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca ou alguém querendo se passar por ele. Inicialmente cético, o jornalista relatou ter sido incluído em um grupo que aparentava ter, além de Waltz, entre seus membros o vice-presidente J.D. Vance, os secretários de Estado, Marco Rubio, e de Defesa, Pete Hegseth, dentre outros altos funcionários do governo. Ali, debateram planos para um ataque contra a milícia houthi, no Iêmen, que incluíam dados sigilosos sobre alvos e agentes de campo. O bombardeio ocorreu no dia 17 de março.
Em entrevista à Fox News, Waltz confirmou, sem dar detalhes, ter criado o grupo e incluído Goldberg nele, assumindo "toda a responsabilidade" pelo incidente — mais cedo, Trump havia dito que um funcionário do conselheiro era o responsável pelo grupo e pela inclusão aparentemente indevida do jornalista, uma versão negada por Waltz.
A revelação provocou ondas de choque na capital americana. Parlamentares democratas exigiram a abertura de uma investigação — na Comissão de Inteligência, o senador Ron Wyden cobrou a renúncia de Hegseth e de Waltz, apontado como o responsável por incluir o jornalista no grupo, o que ele nega. Mark Kelly, também democrata, chamou o incidente de “a coisa mais burra que já viu em termos de manuseio de informações sigilosas”.
Sem votos para iniciar uma investigação por conta própria na Câmara e no Senado, resta aos democratas tentar fazer barulho para obter apoio externo, e torcer para que ao menos alguns republicanos se juntem a eles, uma tarefa que não parece simples.
Desde a publicação da matéria, a Casa Branca e as lideranças trumpistas se lançaram em uma verdadeira “operação abafa” para ao menos reduzir os danos provocados pelo vazamento. Na manhã de terça-feira, Mike Johnson, presidente da Câmara, reconheceu a necessidade de cuidado ao lidar com informações sigilosas, mas tentou reduzir a gravidade do incidente.
"Ele (Waltz) nasceu para o trabalho. Ele é altamente qualificado", disse Johnson, rejeitando os pedidos de demissão. "O presidente disse que tem total confiança nele, e nós também temos".
Tom Cotton, presidente da Comissão de Inteligência, chegou a defender os representantes do governo durante a sessão. John Thune, líder da maioria no Senado, disse ter se tratado de um “erro do julgamento” e que outras comissões devem analisar o caso, mas evitou fazer críticas mais duras. E o veterano Lindsey Graham disse que “nós escapamos por um triz. que espera "que entendamos o que aconteceu e nunca mais façamos isso”, defendendo a permanência de Waltz.
Trump, que aparentou ter sido informado sobre o caso através de repórteres, também tenta mudar o foco o mais rapidamente possível. Nesta terça-feira, em entrevista por telefone à rede NBC, declarou que essa foi “a única falha nos últimos dois meses, e não foi nada séria”, e que Mike Waltz “aprendeu a lição e é um bom homem” — mais tarde, chamou o jornalista de "depravado", e garantiu que não foram divulgados dados confidenciais. Em uma reunião com embaixadores, na Casa Branca, o conselheiro também atacou Goldberg e disse jamais ter tido contato com ele, algo que o jornalista contesta.
"Há muitos jornalistas nesta cidade que fizeram seus nomes inventando mentiras sobre este presidente", afirmou Waltz. "E este em particular, eu nunca conheci, não sei, nunca me comuniquei, e estamos investigando e revisando como diabos ele entrou nesta sala".
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Em publicações na rede social X, Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, atacou Jeffrey Goldberg — chamado por ela de jornalista com uma queda pelo sensacionalismo —, alegou que não foram discutidos planos de guerra ou apresentados materiais sigilosos, e que Trump mantém a confiança em Waltz. Na véspera, Elon Musk, braço direito de Trump, disse que “o lugar mais seguro para esconder um corpo é a página 2 da revista The Atlantic, uma vez que ninguém jamais chega lá”. A postagem foi compartilhada pelo presidente.
As críticas não devem abalar Goldberg, até porque o desdém do republicano por ele e pela The Atlantic não são uma novidade: em 2020, semanas antes da eleição presidencial, a revista revelou que Trump chamou soldados americanos que morreram em guerras na Europa de “perdedores” e “trouxas”. Em entrevista a um podcast nesta terça-feira, o jornalista repetiu ter tido acesso a informações sigilosas, mas afirmou que não levará ao público dados que comprometam a segurança do país.
"Só porque eles são irresponsáveis com o material, não significa que eu serei irresponsável com este material", disse no Bulwark Podcast.
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As conversas não repercutiram apenas nos EUA. As menções pouco elogiosas à Europa ampliaram o já considerável desconforto no continente com o governo Trump. Em um trecho do diálogo no grupo, o vice-presidente, J.D. Vance, afirma que “simplesmente odeia ter que resgatar a Europa de novo”, e Hegseth completou: “Compartilho totalmente seu desprezo pelo parasitismo europeu. É patético”. Em declarações à imprensa na Casa Branca, nesta terça, Trump disse que os europeus "estão se aproveitando dos EUA", e que a União Europeia "foi terrível" para os americanos.
Em Londres, um porta-voz do primeiro-ministro Keir Starmer minimizou as declarações e afirmou que o Reino Unido manterá a cooperação com os EUA. Mas na União Europeia, o tom foi menos amistoso. Um representante do bloco afirmou ao portal Politico que Vance “é o ideólogo neste momento, mas ele pode cometer erros e deixar a bola cair”. Um diplomata europeu, também ao portal, disse que a confiança entre os dois lados do Atlântico “foi quebrada”, e que “a Europa tem mais coisas a fazer porque não tem outra escolha”.