Kjetil Elsebutangen: “O Brasil é o principal parceiro comercial da Noruega fora da União Europeia e dos Estados Unidos (Øyvind Bye Skille/NKR/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 29 de novembro de 2025 às 07h10.
OSLO, NORUEGA* — A partir da próxima segunda-feira, 1º, Kjetil Elsebutangen, diplomata norueguês, assume a embaixada da Noruega no Brasil. Ele será a principal autoridade que representará o país nórdico em solo brasileiro.
“Acredito que será um momento muito importante para começar este novo capítulo nas relações entre a Noruega e o Brasil”, disse ele em entrevista à EXAME.
Sua chegada ocorre em um ano significativo para as relações multilaterais. Em setembro, o Brasil e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), composta por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, assinaram um acordo comercial para ampliar os negócios entre as nações.
Para o diplomata, o acordo fortalecerá ainda mais os laços entre os dois países, que já compartilham uma longa história de relações comerciais.
Em 2024, a corrente de comércio entre Brasil e Noruega foi de US$ 2,3 bilhões, alta de 15% em relação a 2023. Entre os principais produtos exportados pelo Brasil estão alumina, soja e óleos combustíveis, enquanto as importações se concentram em fertilizantes, pescado e equipamentos industriais, conforme dados do Ministério da Indústria e Comércio (MDIC).
Segundo estimativas do governo brasileiro, o acordo da EFTA poderá adicionar R$ 2,69 bilhões ao PIB do Brasil e gerar mais R$ 660 milhões em investimentos até 2044.
“O Brasil é o principal parceiro comercial da Noruega fora da União Europeia e dos Estados Unidos. Mais de 200 empresas norueguesas operam no Brasil, e seus investimentos — já significativos — devem crescer ainda mais”, afirma.
Antes de ingressar na diplomacia, Elsebutangen atuou por 15 anos como jornalista, com especialização em relações internacionais e defesa. Parte de sua carreira foi desenvolvida em Bruxelas, sede da Comissão Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Em entrevista à EXAME, Elsebutangen detalha por que considera o acordo uma 'mensagem política' importante para o momento atual do multilateralismo, explica as razões pelas quais acredita na parceria estratégica entre Brasil e Noruega e compartilha sua visão sobre o papel da diplomacia.
Leia a entrevista completa:
Como deve ser a sua gestão na embaixada da Noruega no Brasil?
A Noruega recentemente apresentou uma nova estratégia de cooperação com o Brasil, que estabelece as bases para nossa relação em quatro áreas principais. Essas áreas vão guiar nosso trabalho no Brasil durante minha gestão. Um ponto importante é o aumento das oportunidades de negócios e investimentos, especialmente com o acordo de livre comércio. Outro foco é continuar o apoio ao combate ao desmatamento e à preservação da Amazônia, que é uma questão muito importante para a Noruega. Além disso, queremos continuar a fortalecer as relações nas áreas de direitos humanos, ciência e inovação, e política externa.
Como a Noruega enxerga o multilateralismo hoje?
O sistema multilateral, que foi gradualmente construído desde a Segunda Guerra Mundial, está sob pressão. O grande confronto entre potências está desafiando como o sistema multilateral funciona. Além disso, o sistema precisa ser reformado para refletir melhor a realidade atual, já que foi criado com uma visão de mundo da década de 1940, e não condiz mais com a dinâmica global de hoje. É necessário torná-lo mais eficiente e representativo. A Noruega acredita firmemente no multilateralismo, pois ele está no centro de nossa política externa e é essencial para nossa segurança e economia. Mas, ao mesmo tempo, precisamos trabalhar para fortalecer e reformar o sistema multilateral com países como o Brasil, que compartilham desses valores.
Quais desafios o senhor enxerga no comércio e na política internacional nos próximos anos?
Acredito que um dos maiores desafios será a crescente competição entre grandes potências e o impacto disso sobre os mercados. A Noruega sempre defendeu um sistema internacional baseado em regras, e em um momento em que vemos mais barreiras comerciais e crescente rivalidade entre grandes potências, o comércio multilateral se torna ainda mais desafiador. Além disso, a questão das mudanças climáticas e da preservação ambiental continuará a ser uma prioridade para a Noruega, e isso estará no centro da nossa agenda com o Brasil.
Qual o peso que o acordo EFTA-Mercosul, assinado em setembro, tem para os blocos econômicos?
Esse acordo representa uma mensagem política muito importante em um momento em que vemos o aumento das barreiras tarifárias e as chamadas ‘guerras comerciais’. A Noruega acredita muito no livre comércio, e esse acordo com o Mercosul é um exemplo disso. Acreditamos é que ele trará benefícios mútuos para os países da EFTA e para o Mercosul. Em um cenário global onde muitos acordos estão estagnados ou sendo contestados, a finalização de um acordo como este é um sinal claro de que o comércio internacional pode seguir em frente de forma benéfica para todos os envolvidos.
A parceria do Brasil com a Noruega não é nova. Como o acordo deve fortalecer a relação entre os países?
O Brasil é o parceiro mais importante da Noruega na América Latina. De fato, o Brasil é o mercado mais importante para os negócios noruegueses fora da União Europeia e dos Estados Unidos. Temos entre 200 e 300 empresas norueguesas presentes no Brasil, e o volume de investimentos está crescendo de forma constante. Esse acordo, abre ainda mais oportunidades para as empresas norueguesas, que já estão estabelecidas e para as que estão buscando novas oportunidades no mercado latino-americano.
Quais setores devem se beneficiar mais com o acordo?
Existem vários setores que podem se beneficiar desse acordo, e, é claro, os mais destacados são os setores nos quais a Noruega já tem uma presença significativa no Brasil. O setor de offshore, por exemplo, onde temos grandes empresas como a Equinor. E, claro, o setor de pescados, que é um dos mais tradicionais para a Noruega. Além desses setores, vemos uma oportunidade crescente para empresas em diversos outros segmentos, incluindo tecnologias limpas, energia renovável, e até setores ligados à inovação e pesquisa.
O acordo levou oito anos para ser assinado. Quais fatores, na sua opinião, contribuíram para esse longo período de negociações?
Eu não estava diretamente envolvido nas negociações, então prefiro não fazer um comentário definitivo sobre o tempo. Mas, em termos gerais, posso dizer que o ambiente global atual, com o aumento de barreiras comerciais e tarifas, influenciou certamente a decisão de acelerar o processo. Tanto as partes da EFTA quanto as do Mercosul entenderam que, em um contexto global de mais restrições comerciais, era cada vez mais importante concluir o acordo. Essa percepção, com a crescente disposição das partes em resolver as questões pendentes, foi o que finalmente levou o acordo a avançar.
*O repórter viajou a convite da Innovation Norway e da Yara Fertilizantes.