Cerimônia na Casa Branca na qual o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou o tarifaço global sobre importações (SAUL LOEB / AFP)
Agência de notícias
Publicado em 4 de abril de 2025 às 09h48.
Última atualização em 4 de abril de 2025 às 09h50.
Na primeira visita de um representante do Kremlin aos EUA desde 2022, o chefe do Fundo de Investimento Direto do país e um dos principais negociadores do Kremlin, Kirill Dmitriev, disse que as conversas com integrantes do governo americano foram positivas, e deram “três passos à frente”. Ele citou potenciais parcerias em campos estratégicos, como a segurança do Ártico e a exploração de terras raras, mas deixou claro que ainda há desavenças.
Em conversa com jornalistas russos, Dmitriev afirmou que o objetivo principal de sua viagem era trabalhar pela restauração do diálogo entre Moscou e Washington — ele disse que o presidente Donald Trump, ao contrário de seu antecessor, Joe Biden, “ouve a posição da Rússia e entende suas preocupações”.
As relações entre os dois lados estavam estremecidas desde a anexação russa da Crimeia, em 2014, mas ruíram de vez após a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, e a aplicação de centenas de sanções — o próprio Dmitriev está na lista de pessoas sob sanções há três anos, mas o governo Trump suspendeu temporariamente as medidas.
"O processo de diálogo, o processo de resolução, vai levar algum tempo. Mas, ao mesmo tempo, está definitivamente avançando de forma positiva e construtiva", disse.
Apesar do estágio inicial das conversas, as primeiras entre russos e americanos nos EUA desde 2022, Dmitriev deu algumas pistas sobre o que está sobre a mesa. Segundo ele, há um “trabalho em andamento” para o restabelecimento das rotas aéreas ligando os dois países, além do retorno de diplomatas e o pleno funcionamento dos serviços consulares.
Em termos econômicos, ele garantiu que há “um grande desejo entre as empresas americanas de retornar à Rússia”, e que”muitas empresas americanas querem ocupar precisamente aqueles nichos que as empresas europeias deixaram”, acrescentando que “apenas onde for útil para a Rússia, onde o governo russo aprovar”. Um ponto destacado pela imprensa russa foi o fato da visita coincidir com o anúncio do tarifaço global de Trump contra praticamente todos os países, mas que excluiu Moscou.
Apesar de oficialmente a pauta não incluir questões políticas, ele disse que discutiu com os americanos “uma possível cooperação no Ártico”, uma região onde Rússia, China, EUA e potências europeias buscam fincar posição, e “sobre metais de terras raras”, tópico sensível nas negociações entre EUA e Ucrânia.
Trump quer que os ucranianos permitam que empresas americanas explorem parte de seus recursos minerais — incluindo as terras raras — em troca da manutenção da ajuda militar. Contudo, boa parte das reservas desses minerais está no leste ucraniano, inclusive em áreas dominadas pelo Exército russo.
Dmitriev destacou que, em sua opinião, os dois lados “deram três passos à frente” em temas importantes, mas que embora exista "dinâmica positiva" neste momento, "serão necessárias mais algumas reuniões" para resolver todas as diferenças.
"É claro que há divergências em vários pontos, mas há um processo, há um diálogo que, em nossa opinião, ajudará a superar essas divergências", acrescentou Dmitriev. "E certamente vemos que muitos atores, de diferentes países, estão tentando interromper esse diálogo. E eles estão tentando interferir na resolução dessas questões que precisam ser resolvidas".
Segundo a imprensa americana, Dmitriev se reuniu com o representante da Casa Branca nas negociações sobre a guerra na Ucrânia, Steve Witkoff, que esteve em Moscou no mês passado e se encontrou com o presidente Vladimir Putin. Embora o enviado russo não tenha mencionado aos jornalistas, as divergências sobre os rumos do conflito certamente estavam sobre a mesa.
Trump quer uma resolução rápida, que começaria com um cessar-fogo amplo e válido por 30 dias, um passo inicial rumo a um acordo de paz definitivo. Mas Putin tem relutado em dar passos mais contundentes, inclusive sobre a pausa nos combates, ao mesmo tempo em que mantém sua ofensiva no leste e seus ataques aéreos ao redor da Ucrânia. O líder russo ainda defende a saída do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, do poder.
O impasse tem irritado o presidente americano, que chegou a ameaçar impor sanções contra compradores do petróleo russo e se disse “muito irritado” com a posição do Kremlin.
"Se a Rússia e eu não conseguirmos fazer um acordo para parar o derramamento de sangue na Ucrânia, e se eu achar que foi culpa da Rússia, o que pode não ser, vou colocar tarifas secundárias sobre o petróleo, sobre todo o petróleo que sai da Rússia", disse Trump à rede NBC News no fim de semana. "Se você comprar petróleo da Rússia, não poderá fazer negócios nos Estados Unidos. Haverá uma tarifa de 25% sobre todo o petróleo, uma tarifa de 25 a 50 pontos sobre todo o petróleo".