ROME, ITALY - APRIL 25: People wait in line outside St Peter's Basilica to view the body of Pope Francis on April 25, 2025 in Rome, Italy. Pope Francis, who died on April 21 aged 88, is lying in state for a final day ahead of tomorrow's funeral in St. Peter's Square. (Photo by Mario Tama/Getty Images) (Mario Tama /Getty Images)
Agência de notícias
Publicado em 8 de maio de 2025 às 13h41.
Quando o então cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi escolhido sucessor do Papa Bento XVI, em março de 2013, dados da pesquisa realizada anualmente pela empresa de consultoria Latinobarómetro, com sede no Chile, indicavam que 67% dos latino-americanos eram católicos.
No ano passado, o percentual tinha caído para 54%. O declínio foi persistente nas últimas décadas, e a chegada do primeiro Papa latino-americano não conseguiu reverter a tendência negativa — um desafio que o novo Pontífice, definido nesta quinta-feira, terá que encarar.
O que explica a perda de fiéis por parte da Igreja Católica na região e as dificuldades que Francisco enfrentou durante seu papado para frear essa queda? Especialistas ouvidos pelo GLOBO apontam vários fatores, entre eles os escândalos de pedofilia envolvendo padres católicos, o crescimento constante e expressivo das igrejas evangélicas, e o que alguns chamaram de “uma mudança de época”, com o impacto das redes sociais e tudo o que elas implicam no dia a dia das pessoas, sobretudo dos mais jovens, mas não apenas.
Francisco visitou dez países latino-americanos: o Brasil foi o primeiro, em 2013, para a Jornada Mundial da Juventude; em 2015, o Papa foi a Equador, Bolívia, Paraguai e Cuba; em 2016, ao México; em 2017, visitou a Colômbia; em 2018, esteve em Chile e Peru; em 2019, finalmente, foi ao Panamá. Os países que, segundo a Latinobarómetro, têm mais católicos são Venezuela e Paraguai. No ano passado, eram 72% do total dos entrevistados. Na Argentina, terra natal de Francisco, o percentual atingiu 63%. No entanto, segundo o último censo no país, apenas 10% são praticantes.
— Vínhamos observando um processo de lenta secularização nos anos 90, que se aprofundou pelos escândalos de abusos na Igreja Católica. Eles provocaram um êxodo e migração importante de católicos para outras igrejas. No Chile, a confiança na Igreja desabou — aponta Marta Lagos, diretora da Latinobarómetro, citando seu país, onde o número de católicos era de 45% em 2024.
Para a analista chilena, “não existe Papa ou Igreja que possa enfrentar isso”.
— Francisco avançou muito, mas também enfrentou fortes resistências internas e externas. Ele nunca conseguiu descolar sua imagem da imagem da Igreja Católica — diz Lagos.
Entre 2013 e 2024, a média da imagem do falecido Papa na América Latina caiu de 7,2 para 5,9, numa escala de 0 a 10. No Chile, o Papa Francisco teve sua imagem mais baixa em toda a região, com apenas 4,7 pontos. No Paraguai, atingiu seu nível mais alto, com 7,9.
— Na América Central, os evangélicos já são dominantes em muitos países. Na grande maioria da América Latina, os católicos ainda são maioria, mas com percentuais mais frágeis e baixos. O Chile tem 35% de agnósticos; o Uruguai, 40% — comenta a analista chilena.
Para ela, “a Igreja demorou muito em responder aos escândalos que a afetaram, e o Papa não conseguiu reverter o impacto negativo dessa atitude corporativa”.
Na Itália, especialistas olham o futuro com um pouco mais de otimismo.
— Por um lado, é preciso esperar um tempo para ver o impacto das mudanças feitas por um Papa, neste caso, Francisco. Por outro, é verdade que até o momento o que vemos é que ele não foi capaz de reverter o declínio da Igreja Católica, não apenas na América Latina, mas na Europa. É interessante, porque João Paulo II, Bento XVI e Francisco adotaram estratégias diferentes nesse sentido — aponta Iacopo Scaramuzzi, vaticanista do jornal italiano La Reppublica, um dos mais importantes do país.
Segundo ele, “João Paulo II e Bento XVI tiveram uma abordagem mais identitária e a ilusão de uma nova era do cristianismo, na qual a Igreja Católica voltaria a determinar as prioridades da sociedade”.
— Francisco foi completamente diferente. Ele não lutou contra a modernidade, não condenou a sociedade. Ele buscou que a Igreja dialogasse com a sociedade e procurasse entender os problemas sociais coletivos, sem demonizar a liberdade da era moderna. Até mesmo a liberdade de as pessoas deixarem a Igreja — explica Sacaramuzzi.
O vaticanista italiano acha que as sementes plantadas por Francisco darão seus frutos no médio e longo prazo. Não se trata de um desafio simples, que será herdado pelo novo Papa. A América Latina ainda concentra quase a metade dos católicos do mundo, com destaque para o Brasil, que sozinho representa cerca de 13% da população católica global.
Na visão de Dom Ricardo Hoepers, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), “a globalização, palavra importante no papado de Francisco, permitiu o acesso a todas as informações, criou novas tecnologias, e passaram a existir outros atrativos que, de certa forma, substituíram a experiência religiosa”.
Em paralelo, admite Dom Ricardo, as igrejas evangélicas, os escândalos envolvendo padres católicos, a necessidade de transparência e os desafios internos da Igreja Católica representam desafios nos próximos tempos. Segundo dados a que a CNBB teve acesso, houve uma estabilização no número de católicos no Brasil, que representam entre 40% e 50% do total da população.
Os evangélicos, afirmou Dom Ricardo, ficaram entre 30% e 40%, também estabilizados. Os que mais cresceram foram os ‘desigrejados’, ou seja, “aqueles que acreditam em Deus, mas não estão vinculados a nenhuma religião”, explica Dom Ricardo. Hoje, acrescentou o secretário-geral da CNBB, 10% dos brasileiros estão nessa categoria.
— É um modus vivendi novo, e a Igreja também está nesse mesmo barco. Tudo isso afeta nossa vivência religiosa. Podemos ter o Papa mais pop do mundo, ele vai agradar, vai ser aplaudido, mas as pessoas continuam sua vida do seu jeito, sem se vincular a valores morais, à comunidade eclesiástica. Essa é a grande mudança de época — aponta Dom Ricardo.
Neste novo mundo, as igrejas evangélicas tiveram um crescimento expressivo na América Latina. A pesquisa da Latinobarómetro mostra que o número de fiéis de igrejas evangélicas passou de 15% para 19%, entre 2013 e 2024. Em países como Costa Rica e Panamá, o percentual é ainda mais alto: 21,4% e 25,3%, respectivamente. O secretário-geral da CNBB não nega esse crescimento, mas assegura que “os evangélicos estão se dividindo”.
— Há um destaque do modo de ser evangélico em todos os níveis e âmbitos da sociedade, mas principalmente na política. Porque, claro, a estrutura deles é totalmente independente. Cada grupo pode crescer, tornar-se político. Um padre não pode se tornar político — argumenta o secretário-geral da CNBB.
Dom Ricardo alerta para a necessidade de pensar em novas estruturas na Igreja Católica e, sobretudo, novas formas de comunicação:
— Aquela estrutura de uma paróquia, um pároco, a comunidade mudou. Surgem novos modos de ser católico, por exemplo, através das redes sociais. Temos padres que fazem missas virtuais com mais de um milhão de pessoas. Estamos numa transição histórica — disse.
O jornalista brasileiro Silvonei José Protz, chefe do serviço em português da Rádio do Vaticano, costuma perguntar a bispos italianos por que a Igreja Católica continua perdendo fiéis na América Latina.
— Acho que estamos reaprendendo a caminhar juntos, no sentido do sínodo que o Papa [Francisco] convocou. Ele deu força a um caminho, tinha preocupação com os católicos, com a confirmação de sua fé — diz o jornalista.
Para ele, um dos maiores legados de Francisco é ter promovido uma “Igreja de saída”.
— Uma Igreja que vai ao encontro — assegura Protz.
Ele espera que essa “Igreja de campanha” seja mantida pelo sucessor de Francisco. Para muitos, é o que poderia trazer esperanças no futuro.