Militares em Latakia, Síria, em março (Omar Haj Kadour/AFP)
Repórter de macroeconomia
Publicado em 5 de abril de 2025 às 06h01.
A guerra civil da Síria, que durou quase 15 anos, terminou de forma inesperada no começo de dezembro. O grupo HTS conseguiu derrubar o regime do ditador Bashar al-Assad após uma ofensiva surpresa, que assumiu o controle do país. Este novo governo, no entanto, segue com um desafio imenso: reconstruir uma economia devastada pela guerra.
Analistas estimam que o custo de reconstrução do país poderá levar 10 anos e custar algo entre US$ 250 bilhões e US$ 400 bilhões. A estimativa mais baixa corresponderia a mais de dez vezes o PIB atual do país, embora a medição seja imprecisa nos últimos anos, devido à falta de acesso internacional ao país e à falta de controle do governo de Assad sobre todo o território sírio.
Os números são impressionantes: mais da metade da população de país, estimada em 21 milhões de pessoas, tiveram de deixar suas casas, seja para outras áreas dentro da Síria ou rumo a outros países. A destruição de estruturas físicas causada pela guerra, aliada à fuga dos civis e o rompimento das redes de comércio e serviços, derrubaram o PIB da Síria em 85% entre 2011 e 2023, segundo dados do Banco Mundial.
Em 2018, a Síria passou a ser considerada um país pobre e a extrema-pobreza, algo antes praticamente inexistente no país antes da guerra, passou a atingir um em cada quatro sírios em 2022. Nos últimos anos, as entidades internacionais não conseguiram mais aferir dados com precisão.
A situação, já ruim, piorou depois do terremoto que atingiu o país, no começo de 2023. A libra síria caiu mais de 140% em relação ao dólar, e a inflação beirou os 100% anuais, alimentando uma crise econômica ainda mais severa, que contribuiu para a revolta dos cidadãos contra o regime de Assad.
"Não há capacidade agrícola de alimentar a população. A produção de trigo, que era um dos principais pilares da economia síria, é hoje de 25% do que era", diz Samuel Feldberg, diretor acadêmico da entidade StandWithUs e fellow do Moshe Dayan Center, da Universidade de Tel Aviv.
Feldberg aponta que duas fontes importantes de moeda forte, o turismo e o petróleo, seguem com acesso restrito. O turismo, por razões óbvias, e o petróleo por estar em áreas habitadas pelos curdos, que lutavam contra o regime de Assad e ainda precisam ser integrados de volta ao país, para que esses recursos possam irrigar a economia nacional.
A recuperação da economia poderá passar por alguns caminhos. A reconstrução de estradas, prédios e outras estruturas trará movimento econômico, mas será preciso de recursos ou financiamento externo. A renda do petróleo, se voltar a ser controlada pelo Estado, poderá ajudar nisso.
Há também a expectativa de que parte dos refugiados sírios possam voltar ao país e trazer, além da força de trabalho, suas economias pessoais. A retomada poderia ainda favorecer a volta da produção agrícola em áreas férteis da Síria. "Existe um enorme potencial, mas a pergunta é se vai haver um ambiente para serem feitos os endividamentos necessários", diz Feldberg.
O novo governo precisa ainda lidar com as dívidas deixadas pela gestão Assad. Só para o Irã, há uma conta estimada de cerca de US$ 30 bilhões.