Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (Brendan Smialowski/AFP)
Repórter de macroeconomia
Publicado em 2 de abril de 2025 às 17h28.
Última atualização em 2 de abril de 2025 às 21h53.
O presidente Donald Trump anunciou nesta quarta-feira, 2, seu maior pacote de tarifas de importação até agora, que deverá afetar de forma profunda o comércio global.
Trump implantará tarifas recíprocas contra países que taxam os Estados Unidos. O percentual mínimo será de 10%, e cada país terá uma taxa diferenciada. O Brasil terá tarifa de 10%.
A China terá uma taxa de 34%, que se somará aos 20% aplicados antes. Isso elevará as taxas ao país a 54%. Veja mais números abaixo.
Segundo a Casa Branca, a tarifa mínima de 10% entra em vigor no dia 5 de abril para todos os países. Países com tarifas acima do mínimo terão o adicional cobrado a partir do dia 9 de abril. As taxas ainda poderão ser aumentadas ou reduzidas, e seguirão em vigor por prazo indeterminado, até que sejam revogadas.
Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil e seu maior comprador de exportações industriais. Em 2024, o Brasil exportou US$ 40 bilhões em produtos aos Estados Unidos. Deste total, cerca de 60% foram itens manufaturados.
Os principais itens exportados pelo Brasil para os EUA no ano passado foram: petróleo, produtos semi-acabados de ferro ou aço e aeronaves e suas peças.
As novas tarifas não serão aplicadas ao aço, alumínio, carros e autopeças, que já foram alvo de outras taxas recentes. Assim, estes itens seguirão sendo taxados em 25%.
Além delas, ficarão isentos outros produtos, como:
A ordem de Trump determina ainda que México e Canadá não serão afetados pelas novas tarifas. Serão mantidos os percentuais anunciados em janeiro e depois revistos. As isenções dadas com base no tratado USMCA também serão mantidas.
No discurso, Trump reafirmou que as tarifas de 25% sobre carros importados entrarão em vigor também no início desta quinta-feira, 3.
O republicano disse que as tarifas recíprocas levam em conta, além de tarifas cobradas, outros fatores, como barreiras sanitárias e condições cambiais e entraves à entrada de produtos americanos. Assim, estabeleceu valores que outros países cobrariam dos EUA, e impôs uma tarifa a eles com base nesse cálculo.
Veja a lista com outros países e blocos:
O anúncio foi feito durante um evento no jardim da Casa Branca, com a presença de seus secretários. Trump disse que hoje é o Dia da Libertação, em que os EUA deixarão de depender de exportações estrangeiras e, em sua visão, de serem explorados por outros países.
Os 10 países e regiões que terão as maiores taxas de TrumpAntes de anunciar as tarifas, Trump citou vários casos de países que aplicam tarifas sobre produtos americanos que ele considera injustas. "Durante décadas, o nosso país foi saqueado, pilhado, violado e saqueado por nações próximas e distantes, amigas e inimigas", disse Trump.
O governo do Brasil adotou a postura de esperar a formalização das medidas de Trump para então definir os próximos passos e eventuais medidas de retaliação.
No começo da tarde, em um evento no Banco Central, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, afirmou que o 'tarifaço' preocupa o governo brasileiro. Segundo ela, a sobretaxação dos produtos vendidos pelo Brasil e por outros países pela maior economia do mundo tende a gerar mais inflação e elevar a taxa de desemprego em todas as nações. “Sem dúvida nenhuma, nós estamos vendo com preocupação. Isso pode impactar inflação mundial, perdas de emprego”, disse.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) tem defendido propor aos Estados Unidos mais parcerias e negócios com o Brasil, incluindo abertura de mercados. Como parte disso, uma missão de empresários brasileiros irá aos EUA, no próximo mês.
"Estamos preocupados, porque a relação comercial com os EUA sempre foi baseada no diálogo. Nosso objetivo é manter os canais abertos, para procurar soluções do interesse das duas partes, indo até mais além, para que a gente busque uma agenda de facilitação de comércio, de abertura de mercados de maneira recíproca", disse Frederico Lamego, superintendente de negócios internacionais da CNI.
LEIA MAIS:
Com a mudança, os EUA passarão a ter o maior volume de tarifas em quase um século e reverterão uma política externa de décadas.
"Este é um momento bastante crítico, no sentido de impedir que se volte à Lei da Selva pré-Segunda Guerra Mundial", diz Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da consultoria BMJ.
A partir dos anos 1940, o país usou sua posição de maior economia global para defender o livre comércio e a redução de tarifas de importação, para abrir mercados.
Com isso, o mundo foi se tornando cada vez mais integrado, e a produção globalizada. Assim, itens como carros ou celulares são feitos com peças vindas de várias partes do mundo, pois elas podem circular facilmente.
Neste processo, os EUA se mantiveram como maior potência global ao apostar em uma estratégia de criar tecnologias de ponta dentro do país, mas fabricar esses novos produtos em outros lugares com custos menores, especialmente na China.
Ao mesmo tempo, no entanto, os americanos viram indústrias deixarem o país e fecharem fábricas, o que gerou ressentimento, especialmente em cidades do interior do país que dependiam delas e entraram em crise no final do século 20.
Muitos moradores dessas cidades se tornaram eleitoras de Trump, que defende uma volta a uma América do passado, onde empregos industriais eram uma opção abundante.
Trump usa as tarifas como forma de tentar atrair indústrias de volta aos Estados Unidos, e também de aumentar a arrecadação federal, que teve US$ 1,8 trilhão de déficit em 2024. Ele diz esperar que as tarifas levarão o país a uma nova era dourada de prosperidade.
Economistas, no entanto, ponderam que as tarifas trazem risco de aumentar a inflação no país, pois os gastos extras provavelmente acabarão sendo repassados ao preço final, e de gerar uma recessão. As medidas poderão dificultar a produção de fábricas que dependem de peças importadas e ainda geram um clima de incerteza, o que reduz investimentos.