Mundo

Titânio, lítio e terras raras: entenda acordo preliminar de exploração mineral entre Ucrânia e EUA

Território ucraniano tem vasta riqueza de minerais e outros recursos naturais, incluindo gás e petróleo; extração, porém, pode não ser fácil

Volodomyr Zelensky, presidente da Ucrânia, e Donald Trump, presidente eleito dos EUA, em montagem (AFP)

Volodomyr Zelensky, presidente da Ucrânia, e Donald Trump, presidente eleito dos EUA, em montagem (AFP)

Agência o Globo
Agência o Globo

Agência de notícias

Publicado em 27 de fevereiro de 2025 às 07h02.

Última atualização em 27 de fevereiro de 2025 às 07h03.

Autoridades da Ucrânia afirmaram na terça-feira, 26, que chegaram a um acordo sobre o acesso dos Estados Unidos a parte das reservas minerais do país, atendendo a uma demanda do presidente americano, o republicano Donald Trump, que vê na concessão uma oportunidade para “compensar” os pacotes de ajuda militar e financeira destinados a Kiev nos últimos anos.

O acordo daria a Washington receitas provenientes dos minerais e outros recursos naturais da Ucrânia, incluindo titânio, lítio, petróleo, gás natural e elementos de terras raras. Um rascunho do acordo visto pelo New York Times descreve a criação de um fundo controlado pelos EUA para receber as receitas. O documento não inclui garantias de segurança, vistas como essenciais por ucranianos.

Quais são os recursos naturais da Ucrânia?

A Ucrânia, o maior país localizado inteiramente na Europa, tem mais de 100 grandes depósitos de minerais críticos, de acordo com um estudo da Escola de Economia de Kiev, além de reservas modestas de petróleo e gás natural. O país ainda possui depósitos de 20 dos 50 minerais que o Serviço Geológico americano considera essenciais para o desenvolvimento econômico e a defesa dos Estados Unidos, incluindo:

Titânio: utilizado na construção, na aviação, em implantes ortopédicos, como aditivo em tintas e cosméticos, como protetor solar e muitas outras aplicações. As minas de titânio no centro da Ucrânia representam cerca de 6% da produção global, segundo Kiev.

Lítio: elemento crucial para baterias, incluindo as de veículos elétricos, além de outros produtos industriais e alguns medicamentos. A Ucrânia tem um terço das reservas totais de lítio da Europa, embora alguns depósitos estejam em áreas de conflito. Antes da guerra com a Rússia, autoridades ucranianas sugeriram a Elon Musk que investisse em minas de lítio no país.

Urânio: usado em usinas nucleares e em armas nucleares. A Ucrânia possui as maiores reservas de urânio da Europa.

Terras raras: um grupo de mais de uma dúzia de metais, muito menos abundantes que o titânio ou o lítio, utilizados em setores de alta tecnologia como o de energia verde, eletrônico e aeroespacial. A Ucrânia tem reservas substanciais, mas a maior parte ainda não foi explorada – e não está claro qual seria o custo para extraí-las.

O que Trump quer?

Trump afirma que deseja a receita proveniente dos minerais como reembolso pela ajuda militar que os Estados Unidos forneceram à Ucrânia. Kiev poderia ajudar a quebrar o quase monopólio da China sobre alguns metais de terras raras necessários para celulares, eletrônicos e possíveis tecnologias futuras.

"Está claro que Europa, Japão e Estados Unidos dependem da China para elementos de terras raras", disse Serhiy Vyzhva, diretor do Instituto de Geologia da Universidade Nacional Taras Shevchenko de Kiev.

Outros minérios, minerais e fontes de energia são menos estratégicos, mas ainda valiosos. As reservas de petróleo e gás natural da Ucrânia poderiam ser uma fonte de receita para o fundo controlado pelos EUA, conforme previsto no acordo.

O que a Ucrânia quer?

A Ucrânia quer o apoio de Trump na guerra e na definição dos termos de uma eventual paz com a Rússia. A questão de como os minerais seriam extraídos ainda não foi amplamente discutida com o governo Trump, mas o desenvolvimento desses recursos é um objetivo de longo prazo para a Ucrânia.

"Nossa base geológica é semelhante à do Canadá e da África do Sul, ambos países com vastos recursos minerais", disse Vyzhva, acrescentando que as minas mais produtivas do país extraem ferro, titânio, manganês e zircônio. "A Ucrânia está altamente interessada em investimentos, mas seu foco principal continua sendo o fim da guerra".

Quais são os obstáculos para um acordo?

Quando o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, apresentou a ideia de trocar recursos naturais por apoio militar, no ano passado, ele disse ao Parlamento da Ucrânia que a riqueza mineral do país valia “trilhões de dólares”. Ele afirmou que essa fortuna poderia estar disponível “ou para a Rússia e seus aliados, ou para a Ucrânia e o mundo democrático”, dependendo de quem vencesse a guerra.

Os recursos são valiosos, mas especialistas dizem que a estimativa de Zelensky é exagerada. A burocracia excessiva e a corrupção têm limitado os investimentos. Por exemplo, uma política da era soviética classifica informações sobre algumas reservas como segredo de Estado, impedindo que estrangeiros sequer as estudem, segundo um jornal de negócios ucraniano.

As receitas do governo ucraniano com royalties de recursos naturais no ano passado foram de US$ 1,1 bilhão, muito menos que as centenas de bilhões de dólares que Trump disse buscar com o acordo. E a Agência Internacional de Energia informou em 2023 que o lítio já é extraído em quantidades suficientes no mundo para atender à demanda global.

Além disso, um depósito de lítio e vários depósitos de terras raras estão na parte ucraniana atualmente ocupada pela Rússia. Algumas reservas de gás natural offshore no Mar Negro também estão inacessíveis enquanto os combates continuam; algumas plataformas de perfuração se tornaram bases disputadas entre fuzileiros navais russos e ucranianos.

No passado, empresas petrolíferas americanas e de outros países já tentaram fazer negócios com a Ucrânia. Antes da incursão militar da Rússia no leste da Ucrânia, em 2014, o país firmou acordos com a Chevron e a Shell para explorar gás de xisto, que a Ucrânia possui em abundância – embora sua extração não tenha sido economicamente viável.

O projeto da Shell terminou com a invasão russa, que ocupou áreas próximas ao local na região de Donetsk. O projeto da Chevron foi cancelado devido a desafios geológicos.

Acompanhe tudo sobre:UcrâniaEstados Unidos (EUA)Minérios

Mais de Mundo

Bezos anuncia restrições em editoriais do jornal The Washington Post

Papa Francisco 'dormiu bem', anuncia Vaticano após 14 dias de hospitalização

Trump anuncia fim das concessões dadas por Biden ao petróleo na Venezuela

Itamaraty reage a crítica do governo Trump ao STF e afirma que decisões não podem ser politizadas