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Ele aportou R$ 50 milhões para criar um clube que virou referência em SP

Luiz Fernando Secali transformou um prédio abandonado na Vila Nova Conceição no The Corner Wellness, um clube de 4.500 m² que une saúde, urbanismo e serviços

Luiz Fernando Secali, da The Corner Wellness: intenção de criar bairro dentro de bairro (Divulgação/Divulgação)

Luiz Fernando Secali, da The Corner Wellness: intenção de criar bairro dentro de bairro (Divulgação/Divulgação)

Karla Dunder
Karla Dunder

Freelancer

Publicado em 30 de novembro de 2025 às 11h31.

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Luiz Fernando Secali, fundador do The Corner Wellness, construiu um negócio que mistura urbanismo, saúde, varejo e serviços em uma das regiões mais valorizadas de São Paulo.

Ele costuma ouvir que sua história é de resistência. “Eu tinha tudo para desistir”, diz.

A frase resume uma trajetória que começou na infância, trabalhando com o avô libanês no Mercado Municipal.

“Ele acordava 3 horas da manhã para trabalha. Sempre foi muito low-profile e amava os colaboradores”, afirma.

Esse convívio moldou a visão de negócio e a noção de responsabilidade local.

“O empresário tem a obrigação de ter sucesso, mas tem responsabilidade com quem está em volta.”

Da quebra familiar ao primeiro negócio

Secali relata ter perdido tudo após a família enfrentar dívidas com fazendas no Sul.

“Meu pai fugiu. Fiquei 10 anos sem ver meu pai”, conta.

Aos 22 anos, precisou encontrar uma saída rápida.

Com uma casa da família penhorada, colocou uma placa de “vende-se” apenas para captar interessados.

“Era uma forma de eu captar cliente.”

A ação improvisada o levou ao mercado imobiliário e depois ao setor de precatórios, quando quase ninguém atuava no nicho.

“Visitei 600 empresas. Usava o mesmo terno, um sapato furado”, diz. A tese deu certo: ele estruturou um fundo que chegou a quase R$ 1 bilhão.

Com o capital acumulado, passou a investir de forma independente no mercado imobiliário — principalmente em Osasco.

“Nunca caixa de investidores. Eu sou contra o mercado financeiro em alguns aspectos”, afirma.

The Corner Wellness: clube numa das regiões mais valorizadas de São Paulo (Divulgação/Divulgação)

A virada: observar o bairro como um ecossistema

Ao se mudar para a Vila Nova Conceição, Secali percebeu que o bairro tinha movimento intenso diurno, mas pouca oferta de serviços.

O estalo veio durante uma corrida quando viu um prédio abandonado em uma esquina. “Falei: ‘Nossa, que prédio simpático esse’.”

A compra levou um ano. Depois deste primeiro prédio, vieram outros empreendimentos no bairro. “Lotes de 38 herdeiros, outro de 24… no total 360 pessoas, 42 inventários”, lembra.

A complexidade jurídica afastaria qualquer incorporadora tradicional. “Uma construtora jamais compraria.”

Em 2014, ele decidiu mapear o bairro manualmente. “Fiquei uma semana fazendo isso. Cataloguei o bairro inteiro", diz.

Observou horários, fluxos e comportamento dos moradores. “Eu falei: ‘Vou fazer um destino para São Paulo e montar um bairro dentro de um bairro’.”

A pandemia e o nascimento do The Corner Wellness

Com a pandemia, seus projetos imobiliários foram interrompidos. Nesse momento, surgiu a ideia do clube.

“Era uma briga para malhar, uma briga para médico… Eu falei: ‘Vou fazer um clube wellness’.” O plano gerou estranhamento. “Todo mundo achou que eu era louco. Me diziam que naquela esquina daria para fazer um prédio residencial e se aposentar”, conta.

Ele estudou academias, medicina integrativa e biomecânica até estruturar o conceito.

“Não existe nenhum clube assim nos Estados Unidos ou Europa”, afirma.

O The Corner Wellness abriu com 4.500 m² e investimento de cerca de R$ 50 milhões.

A operação reúne musculação, fisioterapia, crioterapia (“uma máquina que só eu e o Neymar temos”), spa, salão e parcerias com marcas como Tiffany e Sephora.

O público é majoritariamente do próprio bairro e hoje o clube tem cerca de 500 alunos.

Urbanismo como estratégia central

Além da operação de wellness, Secali investiu na requalificação do entorno. “Eu fiz mais de 1 km de calçada com meu próprio bolso”, afirma.

Trouxe uma padaria, um restaurante japonês e ampliou a oferta de serviços. “Eu sou o primeiro comprador de imóveis aqui em 70 anos”, explica sobre a fragmentação fundiária da Vila Nova.

A escolha não é estética; é estratégica. “Eu quis nascer o wellness. O empreendimento imobiliário vem depois”, afirma.

Para ele, o setor imobiliário saturou o modelo baseado apenas em torres residenciais de alto padrão. O diferencial, diz, está no cotidiano. “O bairro tem vida das 6 da manhã às 10 da noite.”

A avaliação ganhou eco no mercado: em 2023, a revista Vogue classificou o The Corner como o maior clube social da América Latina.

The Corner Wellness: público é majoritariamente do próprio bairro e hoje o clube tem cerca de 500 alunos (Divulgação/Divulgação)

Os próximos passos

Ele afirma ter dois projetos de grande porte para o bairro, com mistura de prédios, lojas e hotel.

“É um mix de tudo, mas sem perder a característica do bairro.” Secali insiste na integração com a mobilidade e a vida a pé. “Não posso perder a característica real da Vila Nova.”

Ele admite que a jornada teve momentos de exaustão. “Nesses 10 anos, eu pensei em desistir umas 40 vezes”, afirma. As negociações com famílias, herdeiros e inventários longos exigiram paciência. “Foi um trabalho muito artesanal.”

A motivação, diz, sempre voltou para o impacto — não para o retorno financeiro. “Dinheiro é energia”, afirma. “Quem vai colher os frutos serão meus filhos, meus netos.”

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