Anderson Pereira, fundador da Kapitale: “O futuro do Brasil depende de crédito mais barato e acessível”
Repórter
Publicado em 29 de novembro de 2025 às 12h00.
A Kapitale, empresa de crédito voltada para PMEs, cresceu 168% no número de operações no último ano e projeta movimentar R$ 500 milhões em pagamentos até 2027.
Fundada em 2023 por Anderson Pereira, a empresa aposta em um modelo considerado inusitado por muitos clientes: antecipação de recebíveis sem cobrança de taxas para o varejista.
“É comum o lojista duvidar no começo. Sem taxa? Onde está o truque?”, diz Pereira.
A resposta está no modelo de negócios: a Kapitale antecipa o valor das vendas feitas no cartão de crédito, mas direciona esse capital diretamente para o fornecedor parceiro, que arca com os custos financeiros — e ganha previsibilidade e segurança na entrega.
A fintech atende hoje varejistas dos setores de saúde e beleza, como farmácias e perfumarias. A escolha é estratégica, já que são setores que movimentam mais de 1,4 milhão de estabelecimentos comerciais, segundo cálculos da Kapitale.
É também onde estão milhares de microempreendedores que, segundo o CEO, “não têm histórico bancário e vivem à margem do crédito tradicional”.
A trajetória de Pereira até a fundação da empresa passou longe dos bancos no início. Ele cresceu ajudando o pai, dono de um ferro-velho na zona leste de São Paulo, a negociar latinhas com catadores e enfrentar dificuldades de crédito. “Com 14 anos, eu era quem ia até os bancos entender as linhas disponíveis”, conta.
Após atuar como executivo no Santander e participar de programas de aceleração no MIT e na Harvard Business School, ele decidiu voltar à origem. “O Brasil tem uma das quatro maiores taxas de juros para PMEs no mundo”, afirma.
Foi com essa tese que, em 2022, ele convenceu investidores americanos a apostar em sua ideia. Logo após apresentar o projeto em um evento em Harvard, saiu com um investimento anjo de US$ 600 mil — mesmo sem ter produto ou cliente.
A plataforma começou de forma simples: um comparador de antecipação de recebíveis, semelhante aos oferecidos pelas adquirentes. Mas, ao perceber que os lojistas pagavam até 7% ao mês para receber o próprio dinheiro, o time decidiu pivotar o modelo.
Hoje, o cliente da Kapitale pode vender parcelado para o consumidor e, ao mesmo tempo, pagar à vista seus fornecedores, sem taxas. A fintech financia esse processo com capital próprio e com funding de terceiros, funcionando como uma ponte entre as duas pontas.
O fornecedor, por sua vez, aceita bancar os custos da operação — algo que, segundo Pereira, já acontecia com boletos e duplicatas, mas com mais risco e menor controle. “Quando mostramos que ele vai receber R$ 100 líquidos, sem inadimplência e sem cobrança, a conta fecha”, diz.
Segundo a empresa, a base de clientes cresceu 134% no último ano. A expectativa é multiplicar por dez a receita até 2026. Para isso, a fintech pretende ampliar o número de distribuidores e fornecedores parceiros, além de explorar novas verticais além da saúde e beleza.
A operação, por ora, está concentrada no Brasil. Mas, segundo o CEO, o modelo pode ser replicado em outros países da América Latina — onde o uso do cartão de crédito parcelado e o atraso no repasse ao lojista também são realidades.
Para além do crescimento da Kapitale, o objetivo do fundador é maior. Pereira acredita que a antecipação de recebíveis deve evoluir para um novo sistema financeiro — em que os próprios recebíveis sirvam como meio de pagamento em toda a cadeia.
“Hoje, cada etapa do processo tem um banco ganhando no meio. O cliente paga no cartão, o varejo antecipa, paga o fornecedor, que emite uma duplicata e também antecipa, e assim por diante. A gente quer quebrar essa lógica”, diz.
A proposta é que o fluxo de vendas e pagamentos funcione de forma mais direta, conectando consumidor, varejo, distribuidor e indústria em uma única rede baseada em recebíveis registrados e rastreáveis.
“O futuro do Brasil depende de crédito mais barato e acessível para quem empreende. A gente não vai crescer ensinando as pessoas só a buscar emprego, mas ajudando elas a criar emprego”, conclui.