Fabiano Zettel e Anderson Misumi, da Solo Snacks: em busca de espaço para um snack saudável que as pessoas realmente gostem de comer (Divulgação/Divulgação)
Editor de Negócios e Carreira
Publicado em 28 de março de 2025 às 06h01.
Última atualização em 28 de março de 2025 às 09h32.
O mercado de snacks naturais tem ganhado força, e a Solo Snacks está se destacando como uma das principais marcas brasileiras desse segmento. Agora, a empresa paulista acaba de receber um novo aporte da Moriah Asset, veículo de investimento liderado por Fabiano Zettel, que passa a deter 30% do negócio.
A Moriah já investiu um total de 2,6 milhões de reais na empresa — o primeiro cheque foi de 1,2 milhão de reais por 20% da operação, seguido por mais 1,4 milhão de reais por 10%, em valuations diferentes. O objetivo é acelerar o crescimento da marca, ampliar sua produção e abrir caminho para novas linhas de produtos, como os salgadinhos de grão-de-bico.
A Moriah Asset foi criada em 2019 por Zettel, um ex-advogado e professor de direito empresarial que largou o terno depois de 25 anos de carreira e migrou para o mercado de alimentos e bem-estar.
A tese da Moriah é simples: ele só investe em empresas com produtos que Zettel consome — e acredita. “Hoje eu uso tudo que as marcas da Moriah produzem. Se o produto não me convence, não tem conversa. Eu preciso acreditar”, diz.
Com capital próprio, o veículo de investimento tem liberdade para se envolver no dia a dia das operações — algo que Zettel faz questão. Ele visita fábricas, acompanha testes de novos sabores, analisa embalagem, pesquisa concorrência no ponto de venda e até compra produtos no e-commerce das investidas para testar a jornada do consumidor. “Eu participo mesmo. Não invisto para ficar no escritório olhando planilha”, afirma.
No portfólio da Moriah estão marcas como Desinchá, Oakberry, Les Cinq, Frutaria São Paulo, Push & Pow, entre outras. A soma dos valuations das empresas investidas já se aproxima de 2 bilhões de reais. O total aportado até agora beira os 300 milhões de reais.
A história da Solo começa antes de 2019, ano oficial da fundação. Anderson Misumi, CEO e fundador, passou anos desenvolvendo fórmulas, testando ingredientes e buscando fornecedores antes de colocar o primeiro produto na rua. A ideia era simples, mas ousada: oferecer snacks com ingredientes reais, zero conservantes, sem adição de açúcar e, principalmente, com sabor.
O primeiro acerto veio com os snacks de frutas liofilizadas, que hoje estão em sabores como maçã, banana, manga e açaí. A tecnologia usada — a liofilização — é um processo que congela a fruta e depois retira a água por sublimação (sem passar pelo estado líquido), preservando textura, nutrientes, vitaminas e fibras. “A maçã liofilizada da Solo é maçã mesmo, só que crocante”, explica Misumi. O processo também prolonga a validade do produto sem necessidade de conservantes.
Anderson montou a empresa com os sócios Thiago Novo (CMO) e Fernando Arruda (CFO), ambos com experiência no setor de alimentos. Juntos, começaram com uma produção terceirizada, vendendo para empórios, academias e cafeterias em São Paulo.
Em 2022, a empresa levantou 2,1 milhões de reais numa rodada anterior à entrada da Moriah. O negócio decolou. Em 2024, a Solo faturou 4 milhões de reais e, com o novo aporte, estima chegar a pelo menos 7,5 milhões de reais em 2025.
A conexão entre Zettel e Misumi aconteceu rápido. “O Anderson é daqueles empreendedores que arregaça a manga. Ele visita loja, organiza prateleira, conversa com o gerente do supermercado. É o tipo de fundador que eu procuro: apaixonado pelo produto e presente no chão de fábrica”, diz Zettel.
O que chamou a atenção de Zettel foi a combinação entre produto escalável, aceitação de mercado e propósito bem definido. “Tem espaço no Brasil para um snack saudável que as pessoas realmente gostem de comer. E os puffs de grão-de-bico da Solo, por exemplo, parecem salgadinhos comuns — mas são assados, sem glúten e feitos com ingredientes naturais”, diz o investidor.
Com a fábrica inaugurada neste ano em Itupeva, no interior de São Paulo, a Solo deu um passo importante: passou a produzir internamente seus snacks, ganhando controle sobre insumos, qualidade e escala.
Foi para isso que serviu parte dos 1,4 milhão de reais investidos na segunda rodada da Moriah. "Chegou um ponto em que não dava mais para crescer com produção terceirizada. A fábrica era o caminho natural", diz Misumi.
A Solo já está presente em mais de 2.000 pontos de venda, incluindo Pão de Açúcar, Oba, Starbucks e conveniências de academias. Mas a marca quer ir além: está entrando em cinemas, atacarejos e redes corporativas como XP, Google e iFood, onde os produtos ficam disponíveis nas áreas de alimentação dos escritórios. A lógica é ocupar mais canais onde o consumidor busca alternativas rápidas e práticas para o dia a dia.
Além da linha tradicional, a Solo trabalha no lançamento do Projeto Salve, que usa frutas fora do padrão estético do varejo para fazer os snacks liofilizados. É uma forma de reduzir o desperdício — o Brasil joga fora cerca de 48 milhões de toneladas de comida por ano — e ao mesmo tempo baixar custos de produção. “Essas frutas têm o mesmo valor nutricional, e ninguém quer. A gente quer”, afirma Misumi.
Para Zettel, o maior obstáculo das marcas de comida saudável no Brasil ainda é o preço. “Hoje, a diferença entre um salgadinho natural e um ultraprocessado caiu bastante. Mas ainda existe. A ideia é ganhar escala e repassar parte disso para o consumidor, sem perder margem”, diz.
A Moriah tem replicado essa lógica em outras investidas. Um exemplo recente foi o lançamento do Desinchá em embalagem Tetra Pak, que derrubou o custo e permitiu vender o chá saudável na mesma faixa de preço de refrigerantes adoçados. “Democratizar esse tipo de produto é prioridade. Senão, a saudabilidade vira um privilégio de poucos”, completa.
Com o apoio da Moriah, a Solo já trabalha no rebranding da marca, no reforço da distribuição e em novas receitas. A meta é simples: tornar a Solo uma referência quando se fala em snacks naturais no Brasil. “Não adianta ser só saudável. Tem que ser gostoso, acessível e estar disponível onde o consumidor está”, resume Misumi.
Se depender do histórico da Moriah, a empresa está no caminho certo. A marca já triplicou de tamanho desde o primeiro aporte. E Zettel segue de perto cada passo. “Meu trabalho é pegar bons produtos e ajudar a escalar. A criatividade é deles. O crescimento é a nossa parte.”