Carla Martins e Jhonny Martins, do Serac, e Jorge Vargas Neto, do BHub: mercado de mais de 500 mil contadores registrados no Brasil (Divulgação/Divulgação)
Editor de Negócios e Carreira
Publicado em 2 de abril de 2025 às 06h01.
A contabilidade brasileira está passando por uma mudança de escala. O SERAC, hub de soluções corporativas fundado em 1996, e a BHub, startup que atua no modelo de backoffice as a service, anunciam uma joint venture que dá origem ao maior ecossistema contábil do Brasil.
A operação, que está em fase final de estruturação jurídica, já nasce com 10 mil clientes ativos e uma meta de faturamento superior a 285 milhões de reais em 2025.A operação conjunta une duas estruturas que cresceram rápido em nichos distintos: o SERAC no atendimento a empresas tradicionais, cartórios e infoprodutores; e a BHub, no suporte contábil e financeiro para startups e pequenas empresas com processos automatizados. A proposta é usar tecnologia, conteúdo e atendimento consultivo para atrair mais escritórios contábeis e entregar um modelo de operação escalável.
A história das duas empresas ajuda a explicar a ambição da nova estrutura. Jhonny Martins, vice-presidente do SERAC, é contador e advogado. Começou atendendo pequenas empresas e MEIs até montar, em sociedade com o pai José Carlos Martins, uma estrutura com presença em 20 estados.
Hoje o SERAC atende clientes como G4 Educação, Óticas Diniz, Flávio Augusto e Thiago Nigro. Martins também lidera outros negócios do grupo, como O MEU MEI e IR SERAC. “Decidimos unir a robustez do SERAC com a escalabilidade da BHub para redesenhar o papel do contador no Brasil”, afirma.
Do outro lado está Jorge Vargas Neto, CEO da BHub, fundador da fintech Biva (vendida ao PagSeguro) e da ZenFinance (vendida ao RappiBank). Desde 2021, ele toca a operação da BHub com foco em automatizar o backoffice de pequenas empresas.A empresa atende mais de 7.000 clientes e já captou 250 milhões de reais de fundos como Valor Capital, Monashees, Latitud e IFC, do Banco Mundial. “O contador é visto como prestador de serviço. Queremos reposicionar esse profissional como parceiro estratégico do empreendedor”, diz Vargas.
A joint venture das duas empresas não é convencional. SERAC e BHub criaram um terceiro CNPJ, em que as duas são sócias, para tocar o negócio em conjunto. A joint venture será o canal de relacionamento com contadores independentes que desejam atuar sem estrutura física, concentrando esforços em atendimento, vendas e consultoria.
A meta é ampliar o número de escritórios parceiros conectados ao novo ecossistema até o fim de 2025, além de lançar novos serviços.
O modelo será baseado em três frentes: automação contábil, conteúdo educacional e atendimento por meio de agentes digitais. Um dos principais ativos do negócio será o uso de inteligência artificial para tarefas repetitivas. O sistema Brain, desenvolvido pela BHub, será integrado à nova operação como assistente 24 horas nos canais de atendimento.
Ele estará disponível no WhatsApp e Telegram, com respostas automatizadas sobre tributos, folha de pagamento e relatórios de desempenho.
Outro projeto já em curso é a “fábrica de contabilidade”, um sistema interno que automatiza o processamento de dados e entrega das obrigações acessórias com base em parâmetros definidos para cada tipo de cliente. A estrutura também será integrada ao Hub do Empreendedor, ferramenta que concentra indicadores operacionais e financeiros de cada empresa em tempo real.
A expectativa de crescimento está ancorada em três frentes: atração de escritórios contábeis que operam de forma tradicional, expansão da base de clientes por canais digitais e novos produtos voltados para contadores autônomos.
“Temos hoje uma estrutura de operação que permite ao contador focar em clientes, e não mais na rotina da entrega. Ele não precisa manter escritório, nem equipe interna. E ainda participa da formação de novos contadores, empresários e influenciadores do setor”, diz Jhonny Martins.
Segundo ele, parte do investimento captado será usada para escalar a operação, ampliar o time de tecnologia e reforçar as estratégias de marketing e captação de parceiros. “Vamos ajudar o contador a vender, gerir o próprio negócio e aumentar a margem. A maioria ainda não sabe fazer isso. Hoje, a profissão tem baixa atratividade e enfrenta alta rotatividade. A gente quer mudar isso com formação prática e apoio na gestão.”
O ecossistema também terá frentes de treinamento, com foco em performance comercial e gestão financeira. Os programas serão divididos em trilhas: uma voltada para novos contadores, outra para empresários do setor, e uma terceira para equipes de escritórios parceiros. A proposta é capacitar desde habilidades técnicas até temas como vendas, gestão de equipe e relacionamento com clientes.
A joint venture entre SERAC e BHub nasce como resposta direta a um mercado fragmentado, com milhares de pequenos escritórios, poucos recursos de tecnologia e dificuldade de escalar. A ideia é ocupar esse espaço oferecendo uma estrutura centralizada e flexível.
“Nosso papel agora é construir uma rede nacional com capacidade de atender empresas de diferentes perfis, ao mesmo tempo em que desenvolvemos o contador como protagonista”, diz Vargas.
Entre as metas para os próximos 18 meses está atingir mais de 20 mil clientes ativos e atrair pelo menos mil escritórios para o ecossistema. A operação já conta com times integrados em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Parte da expansão também prevê novos serviços voltados ao mercado de seguros, folha de pagamento, crédito e gestão financeira, aproveitando a estrutura existente da BHub.
A nova empresa será apresentada oficialmente em uma série de eventos e lives com os sócios fundadores. A comunicação será feita por meio de redes sociais e conteúdos nos canais próprios. A proposta é conversar tanto com empresários quanto com a comunidade contábil. “A gente quer mostrar que é possível fazer contabilidade de outro jeito. Com dados, sem papel, com mais estratégia e menos retrabalho”, afirma Jhonny.
Com um mercado de mais de 500 mil contadores registrados no Brasil, o SERAC e a BHub apostam em uma operação que une atendimento técnico com gestão de dados. A ambição da nova empresa é não só crescer, mas também alterar o modelo de trabalho da categoria. A aposta é que, com mais previsibilidade, mais tecnologia e foco no cliente, o contador possa ser menos executor e mais decisor.