A publicação inglesa, fundada em 1843, atravessou guerras, revoluções tecnológicas e crises de credibilidade na imprensa (PHILIPPE LOPEZ / Equipe/Getty Images)
Repórter
Publicado em 29 de novembro de 2025 às 09h54.
A possível mudança acionária em um dos veículos mais influentes do mundo voltou a movimentar o mercado global de mídia. A participação de 27% da família Rothschild no The Economist atraiu pelo menos uma dúzia de interessados - entre bilionários, fundos e grupos de comunicação — à medida que o prazo para manifestações de interesse se encerrou nesta sexta-feira, segundo a Reuters.
É a primeira vez, em uma década, que uma fatia desse porte está à venda. A última grande movimentação ocorreu em 2015, quando a Pearson vendeu seus 50% ao grupo Exor, da família italiana Agnelli, por 469 milhões de libras.
A operação agora é vista como histórica por especialistas brasileiros, tanto pela relevância da revista quanto pelos impactos simbólicos de sua governança editorial, conhecida pela rigidez contra interferência externa.
A venda de uma fatia da The Economist não pode ser tratada como um negócio comum, afirma Adriana Melo, mentora financeira e CFO com mais de duas décadas de experiência em finanças corporativas, planejamento, controladoria e tributário. Hoje é líder da área de finanças da SAS Brasil.
“Quando uma participação da Economist vai à venda, não estamos falando de um ativo qualquer. Não é todo dia que um investimento de tamanho pedigree aparece no mercado”, afirma.
A publicação inglesa, fundada em 1843, atravessou guerras, revoluções tecnológicas e crises de credibilidade na imprensa - mantendo um posicionamento editorial firme, liberal, pró-mercado e reconhecido mundialmente pela precisão analítica.
“A revista vende discernimento. Ela é conhecida pela independência editorial e pela capacidade de explicar o mundo em poucas páginas. Até ministros das Finanças citam a revista em reuniões fechadas, bancos centrais usam suas análises como referência histórica e universidades a tratam como material complementar em economia e política”, diz Melo.
A Economist Group tem hoje cerca de mil acionistas, segundo a Reuters. Os maiores são a Exor, com 43,4%, e os Rothschild, com 27% - justamente a fatia à venda. O modelo de governança impede que qualquer indivíduo ou empresa controle o grupo, protegendo a independência editorial por meio de um conselho com poder de veto.
Melo reforça que a família Rothschild está em um processo de reorganização patrimonial e sucessória, priorizando liquidez e investimentos alinhados a causas pessoais e ESG.
“Não é fuga, é estratégia. Eles entendem que é uma excelente hora para vender — a Economist é lucrativa, cresce digitalmente e vale cerca de 800 milhões de libras”, afirma.
O economista Igor Lucena, doutor em relações internacionais, aponta que a The Economist tem um papel histórico na formação do pensamento liberal e no debate econômico global.
“Durante muito tempo, ela foi uma espécie de registro intelectual do desenvolvimento das ideias liberais, do livre comércio e da diplomacia econômica moderna. É um periódico que influencia governos, mercados e universidades”, afirma.
A venda da fatia dos Rothschild, no entanto, carrega impacto simbólico.
“A mudança de mãos de uma publicação de 180 anos é significativa. Vivemos um mundo com informação demais e conhecimento de menos. A Economist é um dos poucos veículos que quebra esse paradigma: é pequena, direta, e tem muito conhecimento”, diz Lucena.
O interesse pela fatia dos Rothschild na The Economist vai muito além do retorno financeiro. Embora a revista seja um negócio sólido — com receita de 170 milhões de libras e lucro operacional de 20 milhões de libras nos seis meses encerrados em setembro de 2025, alta de 23% na comparação anual — seu valor simbólico pesa tanto quanto o econômico.
A venda da participação, segundo a Reuters, inclui cerca de 20% das ações com direito a voto, e pode avaliar o grupo em cerca de 800 milhões de libras. Mas o que realmente atrai potenciais compradores é o poder de influência associado ao título.
Dois executivos seniores do setor de mídia nos Estados Unidos disseram à agência que um stake na The Economist funciona como um passaporte para círculos exclusivos do poder global. Um CEO resumiu assim. “Mesmo se você estiver em Davos, que é lotado de pessoas influentes, a Economist te dá respeito. Ela abre portas.”
Para a especialista em finanças Adriana Melo, o apelo é evidente. “É uma instituição que molda debates, incomoda governos, afeta mercados e ajuda a definir a agenda econômica global. Ela é um instrumento de interpretação do mundo”, afirma.
A venda deve se estender pelos próximos meses e será acompanhada de perto por governos, investidores, acadêmicos e analistas de mídia.
O estatuto impede que o comprador tenha controle editorial. Ainda assim, a mudança de um acionista tão simbólico quanto a família Rothschild pode alterar dinâmicas internas de influência, alianças e relações diplomáticas.
Para Melo, contudo, a essência deve permanecer intacta.
“Em tese, a entrada de um novo comprador não muda o DNA da revista. A governança foi feita para blindar isso — e seguirá como uma das últimas barreiras de proteção à independência editorial no mundo.”
E, para Lucena, o cenário reforça a relevância da mídia de credibilidade.
“Vivemos um mundo com excesso de informação e falta de conhecimento. Por isso, publicações como a Economist seguem essenciais — e valiosas.”