Se alguém disser que a GR6 é uma das maiores produtoras de funk do Brasil, Yuri Dinalli, diretor Artístico e de Marketing, irá corrigir rapidamente a afirmação. "É a maior produtora de funk, não uma das maiores. Há alguns anos já, não apenas socialmente, mas em questão de dados, somos os maiores", diz em entrevista à EXAME.
Os números são altos. No YouTube, a produtora tem 42,1 milhões de inscritos no canal oficial e 3 bilhões de visualizações, mais de 2,5 bilhões de streams em um ano, 40 faixas no top 200 anual do Spotify e uma média de 600 shows por mês.
Além das métricas tradicionais, outro motor central do sucesso da GR6 é o TikTok. A produtora identifica na rede social um canal estratégico para viralizar músicas, ampliar o alcance dos artistas e captar tendências em tempo real. A combinação entre batidas do funk e a dinâmica de vídeos curtos fortaleceu a presença da GR6 na cultura digital — e consolidou a plataforma como uma extensão do estúdio e um laboratório de hits.
"O TikTok revolucionou como consumimos música e transformou drasticamente o que determina um hit", afirma Igor Carvalho, CEO da GR6. "O funk é o ritmo que mais se beneficia. Suas batidas naturalmente convidam à criação de dancinhas e coreografias, o que facilita o engajamento e impulsionando virais que se espalham em escala global."
Algumas das músicas produzidas pela GR6 que bombaram na rede social são "Vidrado em Você" de Mc Livinho, "Mãe Solteira" e "Bipolar" com MC Davi e a mega-colaboração entre 11 artistas da gravadora, "Let's Go 4".
Frases carregadas de humor, como "vai se tratar garota", de "Bipolar", e músicas com conceitos que parecem feitos à mão para virar um meme, como "Mãe Solteira", conseguem cativar o público ao falar a mesma língua que ele.
"O funkeiro é isso, ele é um cronista da sociedade. Como a sociedade brasileira é em muito diversa, muito engraçada e caricata à sua maneira, não poderia ser diferente", diz Dinalli.
MC IG: montando o personagem
Um desses cronistas é Igor Guilherme, mais conhecido como MC IG.
Cantor há uma década, ele acumula 10,9 milhões de ouvintes mensais no Spotify e 1,4 milhão de seguidores no TikTok. Seus maiores hits incluem "3 Dias Virado" de 2018, "400K" de 2023, "Let's Go 4" e "Ta Rico os Menino do Gueto" de 2025.
MC IG conseguiu emplacar músicas em fases distintas do funk e da própria cultura popular brasileira. Para ele, ter uma marca registrada é fundamental para essa longevidade na indústria.
"O MC estourou falando e fazendo besteira, mas o IG não é o Igor Guilherme. Ele é um personagem", diz o funkeiro em entrevista à EXAME. "Eu vejo que funcionou porque ele é sincero mesmo. Na época eu acompanhei muitas figuras para fazer o estudo de um personagem, vários que não têm nada a ver um com o outro", afirma.
Uma das personas que ajudou na construção do IG foi o boxeador irlandês Conor McGregor, segundo o cantor. "Na época ele estava ganhando várias lutas, era um tempo mais afirmativo e ele falava tudo na cara mesmo", diz.
No TikTok, a identidade bem demarcada fortalece a imagem do funkeiro e fideliza o público. Apesar de ser um fator importante para o sucesso de Igor, o personagem do funk não foi totalmente ideia dele. "A morte do [MC] Kevin foi uma virada de chave para mim e para todo o cenário do funk, fez a gente olhar para algumas coisas que a gente não tava observando", afirma.
Kevin, que morreu em 2021, era conhecido na internet pelo seu senso de humor. "Infelizmente ele não colheu tanto do que ele plantou, mas a cena em geral tem muito a agradecer a ele", diz.
A estratégia nos bastidores
Além da afinidade entre os meios, há também um esforço estratégico
"São quase 200 funcionários trabalhando nas mais diversas áreas. É um acompanhamento de tendência mesmo, estamos atentos ao que o mercado pede e vamos na direção daquilo que o instinto da empresa também fareja", explica Dinalli.
A produtora dialoga regularmente com o TikTok, a fim obter relatórios de desempenho das músicas e das tendências na plataforma. Também são realizados dois workshops por ano para a GR6 receber recomendações de melhores práticas.
Nas palavras do diretor artístico, a plataforma é um "outdoor" para o que eles produzem. Hoje em dia a relação entre o funk e a rede social é positiva, mas já houve momentos de crise.
Ele conta que houve um período na pandemia em que a tentativa de criar músicas com esse fim específico piorou a qualidade delas.
"É uma época que eu nem gosto de lembrar. Foi um período muito nebuloso na indústria funkeira como um todo, porque as pessoas ficavam bitoladas em criar a famosa música de TikTok", diz. "Isso acabou empobrecendo as produções, uma vez que se focava no fim e não nos meios."
A estratégia criativa atual não deixou de levar o TikTok em conta, mas dá preferência a músicas de qualidade mais alta. "Se nós entrarmos no estúdio pensando no que as pessoas querem exatamente escutar... essa é a hora que começa a dar tudo errado", diz Igor.
'Feliz no Simples' e as lives no TikTok
O MC IG conquistou um nicho altamente rentável, mas ainda pouco explorado por músicos, do TikTok: batalhas em live.
"Eu estava na Espanha, no hotel e não conseguia dormir. Aí eu comecei uma live e um monte de gente mandou uns presentes malucos. Fazia um tempo que eu não fazia algo que tinha aquele retorno", afirma. "A estratégia entrou quando eu comecei a entender que aquilo podia dar muito dinheiro e que serviria para divulgar o meu trabalho."
Esse mecanismo foi usado frequentemente na promoção do último álbum de IG, "Feliz no Simples". Ele conta que foram chamados diversos criadores de conteúdo para tocar as músicas do álbum em suas lives.
Os resultados foram bons. Sete faixas do álbum têm mais de 10 milhões de streams no Spotify, com destaque para "Ta Rico os Menino do Gueto", com 85 milhões.
"Não tem um dígito direto que me deixe explicar o quanto essas ações foram boas para o álbuml", diz Igor. "Na minha live de maior relevância, eu fiz US$ 33 mil."