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Na corrida do entretenimento, Autódromo de Interlagos é palco principal de festivais em SP

Com 400 eventos ao ano, espaço traz impacto econômico para regiões do entorno e muda o status 'residencial' do bairro de Interlagos

Um turista gasta em média R$ 2.747,80 na cidade ao vir para o Lollapalooza ( Daniel Deák/ SPTuris)

Um turista gasta em média R$ 2.747,80 na cidade ao vir para o Lollapalooza ( Daniel Deák/ SPTuris)

Publicado em 31 de março de 2025 às 14h51.

Última atualização em 31 de março de 2025 às 15h12.

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Quem sai de carro de Santana, zona norte de São Paulo, rumo ao centro da cidade, se depara ao longo da estrada com placas de trânsito que informam locais e acessos mais próximos do bairro. Consta ali, também, a direção para ao Autódromo de Interlagos, na zona sul da capital paulista, distante quase 30 quilômetros da região.

As placas foram colocadas em toda a cidade durante a primeira gestão de Ricardo Nunes — próximas ou bem distantes do Autódromo — pouco antes da primeira edição do The Town, em 2023, um entre mais de 400 eventos que o local recebe ao longo do ano, segundo relatório da São Paulo Turismo (SPTuris). No ano de estreia, o festival de música movimentou 500 mil pessoas em cinco dias, maior do que o Lollapalooza, que já é realizado no Autódromo desde 2014 e, em 2025, recebeu 240 mil pessoas de sexta, 28, até o fim deste domingo, 30 de março

Ao todo, o festival — tido como um dos maiores do país — contou com 70 atrações, 20 mil lambe-lambes, 44 marcas e 47 ativações. Foram também 36 horas de música e 16 artistas estreando no país. 600 metros quadrados do Autódromo foram preenchidos pelo evento. 

Estruturas para festivais de música do Autódromo de Interlagos, posicionadas em 2023

Ainda que o Autódromo receba mais de um evento por dia — as famosas corridas de Fórmula 1, motivo pelo qual a pista está ali em primeiro lugar —, durante a maior parte do ano, a região de Interlagos é pouco movimentada. Majoritariamente residencial, com mais casas que prédios, os moradores relatam que o bairro muda mesmo só quando chegam os megaeventos. 

Maria Aparecida, "Cida" já vendia bebidas, cigarros e até mesmo almoço desde 2006, antes mesmo da Estação Autódromo existir. Moradora do bairro desde 1983, ela ressalta os eventos ajudam os negócios, mas só eles não são suficientes para manter o bairro.

"No dia de show, a prefeitura faz tudo. Limpa, capina a praça, a estação [Autódromo] ganha cobertura. Em outras épocas do ano, o bairro fica esquecido”, conta ela. Mas admite: “Eventos como o Lollapalooza e o Primavera Sound trazem o dobro de movimento em comparação a um dia normal”.

Lollapalooza no Autódromo de Interlagos ( Daniel Deák/ SPTuris)

Em 2024, mostram os dados do Observatório de Turismo e Eventos (OTE) da SPTuris, o festival movimentou R$ 900 milhões na economia de São Paulo. Em média, são R$ 2.747,80 gastos por turista dentro e fora do evento

“O festival leva em média 100 mil pessoas por dia no Autódromo, 20% delas turistas”, diz Gustavo Pires, CEO da SPTuris. “A região do entorno do Autódromo também tem alta procura. Uma plataforma de hospedagem parceira informou que a procura por acomodações em Interlagos aumentou em 1.000% em relação ao ano passado”. A rede hoteleira da cidade fica em torno de 75% lotada nos dias de show, mas na região do Autódromo, chega bem perto dos 100%”.

Não só os hotéis registrados se beneficiam, como também quem mora nos arredores do local. Barulho alto à parte, há quem ceda um quarto dentro de casa para receber os turistas por um preço mais acessível. Na rua de saída da Estação Autódromo — principal meio de acesso ao evento —, é comum ver portões de garagem abertos com mesas de plástico, cerveja por R$ 8, hambúrguer por R$ 20 e banheiro “limpinho”, por R$ 5. 

"Hoje aproveito meu espaço para vender bebidas, cobro para deixar as pessoas usarem o banheiro, mas quando eu era mais novo e o Autódromo recebia somente a Fórmula 1, eu guardava carros e colocava gente para assistir as corridas de dentro da casa da minha vó, que tinha vista para a pista", conta Alexandre Tacconi, de 52 anos, dono de um sebo no bairro há seis anos.

Sebo 'Estação Literária, próximo à estação Autódromo, comercializa também bebidas nos dias de show (Rebeca Freitas)

Marcos Resenti, de 50 anos, é dono da Padaria Vila Satélite há dez anos, que tem uma localização privilegiada entre a estação de trem e o Autódromo. Ele fecha parcerias anualmente com patrocinadores do festival e este ano terá ações com a Ambev, uma parceria de negócio que aumenta (e muito) a renda anual do empreendimento.

Ana Regina, de 72 anos, toca o “Cantinho da Regina” há uma década. A lanchonete fica na garagem da casa onde vive por bem mais tempo do que o Lollapalooza existe e é fundamental para complementar sua renda após a aposentadoria. Assim como Cida e Alexandre, ela lucra quando o Autódromo recebe festivais de grande porte, ainda que perceba que o bairro recebe menos atenção entre os megaeventos.

“Poderia ser bem melhor [para vender]. Quando tem evento, são colocadas grades ao entorno da rua que atrapalham muito o comércio na Rua Plínio Schimidt", reclama Cida. 

A reclamação sobre as grades é unânime entre o moradores-empreendedores da rua da Estação Autódromo. "A gente acha que vai ter um 13º, mas não é essa a realidade, porque atrapalha a passagem para o público entrar no comércio", diz Danilo Paixão, de 38 anos, que vende espetos, lanches e bebidas na garagem de sua casa há anos.

Os gradis, disse o presidente da SPTuris durante a entrevista, são colocados tanto para facilitar o acesso e caminho das pessoas da estação até a entrada do Autódromo, como também para garantir a segurança do público, como em todo evento de grande porte. O trabalho é feito em coordenação com a Polícia Militar e Civil, Corpo de Bombeiros e CET.

Operação (lucrativa) em larga escala

Parte da pista do Autódromo de Interlagos, usada durante as corridad da Fórmula 1 ( Jose Cordeiro/ SPTuris)

Em 2012, quando chegou ao Brasil, o Lollapalooza foi realizado no Jockey Club, mas o excesso de lama do local conhecido pelo hipismo fez com que em 2014 o festival fosse transferido para Interlagos. O Autódromo conta com 4.309 metros de pista e 30 mil m² no total, contando demais estruturas e arquibancadas. Foi escolhido sobretudo por ser mais distante do centro — o que o torna “isolado” das regiões centrais de São Paulo e interfere menos no funcionamento da cidade. Mas isso não torna a operação nos arredores do evento tão menor.

A estrutura da prefeitura de São Paulo para eventos como o Lollapalooza, Primavera Sound, The Town e o GP de São Paulo, da Fórmula 1, é feita em larga escala por um conjunto de órgãos públicos, em colaboração com o próprio evento que vai ocupar o Autódromo. Envolve desde a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) para controle do trânsito, a SPTuris para contrato e apoio ao turista até as estações de Trem e Metrô da capital.

“São em torno de 15 a 20 instituições que trabalham em conjunto quando um evento do porte do Lollapalooza acontece em São Paulo. Mais de 20 mil empregos diretos e indiretos são gerados pelo festival todos os anos em uma operação massiva mesmo, que reestrutura a maneira como o bairro opera naqueles três a cinco dias”, explica Gustavo Pires. 

Mas a presença dos festivais, diante da operação em larga escala feita pela prefeitura e de demais órgãos públicos e privados, também se torna uma baita oportunidade de negócios. 

Estação Autódromo adesivada com publicidade do Bradesco especial para o Lollapalooza (Rebeca Freitas)

Desde 2022, a ViaMobilidade, do Grupo CCR, controla a operação da Linha 9-Esmeralda, a qual a Estação Autódromo faz parte. Segundo a empresa, em dias normais, o local recebe cerca de 9 mil passageiros diários. Em períodos de grandes eventos, esse número salta para aproximadamente 40 mil, um aumento de 344%.

Estações e trens se tornam espaços de ativação publicitária, oferecendo experiências imersivas antes, durante e após os eventos. “As cores agregadas ao concreto cinza da estação autódromo com a adesivação do Bradesco neste ano é um negócio lucrativo para a ViaMobilidade”, afirma João Pedro Almeida da Rocha Pita, diretor comercial da CCR Mobilidade. 

Os contratos de publicidade são feitos de forma exclusiva com o evento. João Pedro conta que a própria organização do evento traz a ideia das campanhas, as marcas oferecem à ViaMobilidade e demais estações de metrô e trem da cidade, e o valor — que não foi compartilhado com a EXAME — é fechado em parceria com as três entidades envolvidas. 

O principal meio de acesso ao evento é feito pela malha metroviária de São Paulo, que opera durante 24h desde 2023 em dia de festivais. A Estação Autódromo, principal rota de saída até às portas do local, fica aberta para entrada de passageiros; as demais estações permitem somente a saída ao longo de toda a madrugada.

“Todo o planejamento envolve um comitê de mais de dez áreas, com cerca de 100 profissionais das equipes de operação, manutenção, engenharia, segurança do trabalho, comunicação, marketing, eventos e comercial. O trabalho começa 60 dias antes do evento e se encerra uma semana depois”, compartilha André Costa, diretor das Linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda.

A operação da estação é reforçada com atendimento bilíngue, mais agentes de segurança, sinalização especial, comunicação ativa e monitoramento em tempo real. 

Embarque do trem expresso em Pinheiros, com destino à estação Autódromo (Adriano Siqueira)

Nos dias de evento, a empresa de mobilidade oferece ainda o ‘Expresso Autódromo’, um trem com hora marcada e menos paradas até o evento por um custo mais alto do que os tradicionais R$ 5,20 cobrados por passagens comuns. De acordo com a ViaMobilidade, a proposta é ‘oferecer uma alternativa mais rápida e confortável para quem busca praticidade, sem afetar o funcionamento da linha regular’. 

Em 2025, além do Lollapalooza, que aconteceu na capital paulista entre 28 e 30 de março, o Autódromo também receberá a segunda edição do The Town, em setembro, e alguns outros eventos menores. O uso da pista, no entanto, é destaque só no fim do ano, com o tradicional GP de São Paulo que, apesar de ser o motivo do Autódromo operar, recebeu o número recorde de 290 mil pessoas em 2024, durante seus três dias de evento. 

Em 2025, o Lollapalooza recebeu mais de 240 mil pessoas de sexta a domingo, distante do recorde de 2023, com 300 mil ingressos vendidos.

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