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Tarifaço de Trump expõe desafios e oportunidades para o Brasil expandir exportação de frutas

O impacto das tarifas americanas no setor de frutas joga luz sobre o potencial do país. Terceiro maior produtor, o Brasil é apenas o 31º exportador

Exportação de frutas: o Brasil precisa explorar novos mercados e melhorar a logística para avançar (Smederevac/Getty Images)

Exportação de frutas: o Brasil precisa explorar novos mercados e melhorar a logística para avançar (Smederevac/Getty Images)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 28 de agosto de 2025 às 06h00.

Toneladas de manga apodrecerão no pé, enquanto outras frutas, como uva, melão e limão, serão jogadas fora. Esse foi o quadro pintado por parte do setor de frutas brasileiro após o tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. De fato, algumas culturas sentirão muito o efeito das sobretaxas, especialmente porque o produto é perecível: se não vender a tempo, apodrece. Mas, de maneira geral, os EUA representam apenas 7% das exportações nacionais de frutas. Essas tarifas podem abrir espaço para uma reflexão mais ambiciosa: por que o Brasil, terceiro maior produtor global de frutas, é apenas o 31o exportador? 

“Falta focar a abertura de mercados e a qualificação dos pequenos e médios produtores”, diz Guilherme Coelho, presidente da Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Frutas, a Abrafrutas.

Nos últimos anos, o setor teve avanços, partindo de uma base baixa para recordes consecutivos de exportação. Em 2024, as vendas para o exterior foram de 1 milhão de toneladas de frutas frescas e preparadas, que renderam 1,3 bilhão de dólares, vindos principalmente da Europa. Nos últimos quatro anos, a média de crescimento foi de 7% ao ano. No entanto, o país ainda enfrenta desafios que limitam seu potencial.

“Para ampliar a presença ao longo do ano, é essencial reduzir custos logísticos e produtivos, e avançar no atendimento às exigências de qualidade”, diz a professora Margarete Boteon, pesquisadora da área de cítricos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP). Hoje, grandes exportadores cumprem os protocolos, mas produtores menores enfrentam barreiras para se adequar e preferem o mercado interno.

A exportação brasileira aproveita a entressafra de grandes produtores mundiais, em uma estratégia que é uma faca de dois gumes. O produto brasileiro é vendido por preços mais altos nas épocas em que falta produto, mas tem espaço limitado fora desses períodos.

“É preciso ter um empreendedorismo voltado para o mercado externo, como aconteceu no Chile, no Peru e no México”, afirma Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global. No quesito frutas, o Brasil fica atrás de vizinhos menores, como Chile, Peru e Equador. Com um mercado de 200 milhões de pessoas, exportamos menos de 3% das mais de 42 milhões de toneladas produzidas.

Um bom exemplo vem do Chile. Por lá, criou-se um modelo exportador empresarial desde os anos 1930, com base em uma logística sofisticada, como o transporte aéreo para enviar frutas de validade curta. Por aqui, usamos traslados marítimos de mais de 30 dias. Ou seja, mais frutas nacionais poderiam ir daqui para a Ásia de avião, por exemplo.

Outra solução seria unir pequenos e médios produtores em cooperativas, a exemplo de outros segmentos do agro, para terem maior capacidade de exportação — atividade mais complexa do que vender no mercado interno. As tarifas de Trump são um convite para o Brasil buscar novas soluções e colher mais resultados fora de suas terras. 

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