O vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, em reunião com a presidente mexicana, Claudia Sheinbaun, na Cidade do México (Jessica Ramírez/Presidencia do México)
Editor de Macroeconomia
Publicado em 30 de agosto de 2025 às 15h24.
Última atualização em 30 de agosto de 2025 às 15h37.
CIDADE DO MÉXICO* - O Brasil abriu um novo mercado agropecuário para exportações ao México. Após um aumento significativo das exportações da carne bovina nacional ao país, que se tornou o segundo maior comprador da proteína brasileira, as autoridades mexicanas se comprometeram a abrir o mercado de farinha de bovinos e suínos. Nas contas do governo brasileiro, trata-se de um mercado de US$ 1 bilhão no México.
"O mercado mexicano de produtos de reciclagem animal é de US$ 1 bilhão. Com essa abertura, o Brasil agora começa a disputar esse mercado de US$ 1 bilhão", afirmou Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, em conversa com jornalistas. "No México, todos os números são grandes."
Os acordos acontecem após visita do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Geraldo Alckmin, na qual ele anunciou que os acordos comerciais entre os países serão renovados, com um cronograma para nova assinatura em agosto de 2026.
Essa parte da cadeia dos frigoríficos é conhecida como reciclagem animal. Em suma, utilizam-se ossos e outras partes de aves, bovinos e suínos para gerar uma farinha que possa alimentar outros animais (a oferta de farinha precisa ser "cruzada"; ou seja, a farinha bovina pode alimentar um rebanho suíno, e assim sucessivamente).
Presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, assina memorando de entendimento no México: mercado de reciclagem animal mexicano movimenta US$ 1 bilhão anualmente (VPR/Divulgação)
Esse produto é amplamente utilizado na formulação de rações, pet food e produtos derivados de origem animal.
Para o setor da carne nacional, trata-se de uma vitória. Em julho, a China habilitou 51 frigoríficos nacionais para exportar farinhas de aves e suínos. O país asiático importava quase integralmente dos Estados Unidos o produto.
Em 2024, segundo a ApexBrasil, o Brasil produziu cerca de 3,7 milhões de toneladas de farinhas de origem animal, de todas as espécies, mas exportou apenas 9% desse total — um movimento de US$ 211 milhões.
Na China e no México, os Estados Unidos lideram as exportações do produto. Na China, por exemplo, os fabricantes americanos exportaram 407 mil toneladas de farinhas animais em 2024.
No caso mexicano, trata-se de um grande mercado de pet food. "O México é um ótimo mercado, uma vez que o setor de pets é grande aqui", disse Carlos Fávaro, ministro da Agricultura, em conversa com jornalistas.
"No mês passado, abrimos [o mercado de] farinhas para China, foram as primeiras habilitações. Era um produto com um mercado muito restrito. Na medida que a gente começa a abrir esses mercados, a nossa indústria de transformação se beneficia. Quando você acha um mercado remunerador para vender, ela deixa de ser um subproduto para ser um co-produto", afirmou o ministro.
Segundo ele, o produto principal é a carne. "Mas o osso passa a ser um produto a ser exportado, e tem valor agregado", disse.
De acordo com o ministro, o Brasil habilitará ainda mais 14 plantas de carne bovina, suína e de aves para exportar ao México.
"A abertura de mercado é um processo: habilitam-se as plantas, tem que passar nos critérios técnicos do país comprador, e aí começam novos negócios", disse Fávaro.
Ele comemorou a marca de 415 novos mercados abertos (isto é, produtos com facilitação para exportação e importação) para comércio global, conquistada nesta semana. Mas destacou o valor do México nesse esforço.
"Dos 415 mercados, parece que a gente é muito dedicado à Ásia e ao Oriente Médio. Na realidade, o recordista é o México, com 22 habilitações nesse período e também com o maior volume de negócio, que chegou a US$ 870 milhões nesses dois anos e meio", disse Fávaro em conversa com jornalistas no México. "É 50% do valor que as novas habilitações e aberturas comerciais geraram."
Um estudo do Mapa mostrou que as aberturas de mercados desde 2023 resultaram em US$ 1,73 bilhão adicionais em exportações agropecuárias.
O México responde por 50,4% dessas exportações adicionais, segundo o Mapa, seguido de Egito, com US$ 175 milhões adicionais, Vietnã (US$ 157 milhões), Turquia (US$ 89 milhões), e Argélia (US$ 81 milhões).
Nos encontros, o Brasil autorizou a importação de derivados de atum, pêssegos e aspargos mexicanos.
Além disso, o governo mexicano se comprometeu com a regionalização, em caso de gripe aviária, para a comercialização de produtos de aves.
"Mediante a ocorrência da patogenicidade, o protocolo será avaliado em até 10 dias pelo México para restringir às exportações a área de influência da doença", disse o Mapa, em nota.
A medida é importante, apontou Fávaro, porque diminui consideravelmente o impacto na produção -- que, em geral, não é afetada quando há um caso isolado, como aconteceu no Brasil neste ano. "É um grande avanço para a relação comercial e praticamente impacto zero [para o setor de aves]", afirmou.
Também estão previstas para os próximos meses auditorias mexicanas para habilitação de novas plantas frigoríficas brasileiras de bovinos, aves e suínos para a comercialização para o México.
Liderada por Alckmin, a missão contou com reuniões governamentais e fóruns empresariais com a participação de mais de 350 empresários brasileiros e mexicanos.
Segundo Fávaro, para o agro, o balanço foi a sinalização de renovação do Paquete Contra la Inflación y la Carestía (PACIC), programa que zera as tarifas de importação para produtos da cesta básica no México para diminuir a inflação local, a abertura desses novos mercados, a habilitação de novos frigoríficos e um entendimento para a regionalização quando forem identificados casos de gripe aviária.
"Discutimos uma exigência mexicana, que é a rastreabilidade bovina", afirmou o ministro.
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro (à esquerda), o vice-presidente, Geraldo Alckmin, em encontro com Julio Berdegué, secretário de Agricultura e desenvolvimento rural do México (Nurivan Mendoza Memije/Divulgação)
O ministro destacou que apresentou o programa de rastreabilidade bovina brasileiro, o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos. "Não vai ser da noite para o dia, são 230 milhões de cabeças de gado que serão identificadas", disse.
Produtores, indústria e governo, contou Fávaro, definiram o prazo de início da obrigatoriedade do rastreamento para janeiro de 2027. Para ele, a partir desse momento o processo será "muito rápido". "Passa a ser uma exigência crescente do mercado e, consequentemente, vai desabonar aquele que não tem [a rastreabilidade]", afirmou.
O Mapa prevê que o sistema estará plenamente operacional em 2032.
Com as autoridades mexicanas, ficou acertada a criação de um calendário para atender a exigência do país. "Mas de acordo com a nossa capacidade, e que isso não interrompa as exportações brasileiras", disse Fávaro.
* O jornalista viajou a convite da ApexBrasil