Operação contra o PCC: especialista apontam que o tamanho da atuação do crime na economia formal pode ser gigante e comparado com outros países (Receita Federal/Divulgação)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 29 de agosto de 2025 às 13h43.
Última atualização em 29 de agosto de 2025 às 13h47.
A megaoperação Carbono Oculto revelou a atuação bilionária das organizações criminosas em setores da economia, usados para lavar dinheiro do tráfico de drogas.
Embora essa situação possa ser novidade para parte da população, ela é bem conhecida por quem acompanha e estuda o tema.
De acordo com especialistas ouvidos pela EXAME, esse cenário não é exclusivo do Brasil. Países da América Latina, como Colômbia, Equador e México, dominados pelo tráfico, também enfrentam essa realidade, e alertam para o risco de uma atuação ainda mais refinada nos próximos anos.
Os dados sobre o tamanho do estrago não são facilmente obtidos, exatamente pela natureza criminosa das ações, mas algumas estimativas revelam a dimensão do problema.
A operação constatou que a organização criminosa movimentou mais de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, infiltrando-se em toda a cadeia de combustíveis e no sistema financeiro nacional.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados no início deste ano, apontam que a atuação de várias facções no setor de combustíveis e lubrificantes traz um faturamento anual de R$ 61,5 bilhões. São 13 bilhões de litros por ano, representando 8,7% do mercado total e correspondendo a três semanas de abastecimento para mais de 500 milhões de carros.
Considerando outras atividades, como extração e produção de ouro, tabaco, cigarro e bebidas, o faturamento do crime pode ultrapassar R$ 348 bilhões. As perdas tributárias para os cofres públicos chegam a R$ 72 bilhões.
Toda essa atuação serve, na verdade, como um acessório para o principal negócio do crime: o tráfico de drogas, o negócio mais lucrativo para as organizações criminosas no mundo, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).
Uma estimativa do FBSP, com base em dados do UNODC, aponta que o potencial de faturamento de toda a cocaína que passa pelo território brasileiro chega a R$ 335,1 bilhões anualmente, caso seja vendida para a Europa. Isso representa 3% do PIB brasileiro. Esse número pode ser ainda maior ao considerar outras drogas exportadas pelo Brasil, como a maconha.
A proximidade com países grandes produtores de cocaína, como Colômbia, Bolívia e Peru, torna o Brasil um ator estratégico, tanto para consumo interno quanto para escoamento do produto, segundo o UNODC.
"Em todos os países da América Latina, você encontra uma fatia grande de negócios legalizados usados como fachada para lavar dinheiro do tráfico", afirma Bruno Pantaleão, pesquisador do FGV-Analytics e autor do estudo "Tradable Illegal Goods: The Political Economies of Illicit Markets", apresentado com exclusividade à EXAME.
Pantaleão mostra no estudo que, em 2019, as forças policiais brasileiras apreenderam mais de 250 toneladas de cocaína, com valor conservador de US$ 2,5 bilhões, o que equivale a 0,1% do PIB do Brasil ou 1% das exportações do país na época. As 60 toneladas apreendidas apenas nos portos brasileiros representam 0,26% do valor total das exportações daquele ano.
O pesquisador explica que a infiltração na economia legal existe para permitir que as exportações de cocaína ocorram em uma infraestrutura em funcionamento.
"Seja no transporte ou até no meio de pagamento. Todos os países onde há essa combinação de fatores (disponibilidade de cocaína + mercados legais bem desenvolvidos) têm setores exportadores muito infiltrados, assim como uma parte do sistema financeiro", afirma.
Ele detalha que México e Paquistão enfrentam dinâmicas semelhantes ao Brasil, por serem considerados países de "trânsito das drogas".
"Os traficantes exploram a interface entre as economias legais e ilegais, inserindo bens ilícitos nas estruturas legítimas de exportação, ao mesmo tempo em que dependem da aplicação seletiva da lei e da cumplicidade estatal", afirma.
México: os cartéis de drogas mexicanos são os principais fornecedores de cocaína, heroína, metanfetamina e outros narcóticos ilícitos para os Estados Unidos (Andrew Hasson / Colaborador/Getty Images)
Na avaliação de Gabriel Patriarca, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) e especialista na atuação do crime organizado nos portos brasileiros, a operação demonstrou que a infiltração é imensa, especialmente nos portos.
"Nesse caso, por exemplo, eles estiveram envolvidos no investimento em um terminal portuário em Paranaguá, para a importação de metanol", afirma.
Patriarca alerta que, no futuro, pode-se observar o PCC investindo no controle de terminais portuários para a exportação de drogas, utilizando empresas laranjas. Ele explica que, hoje, a infiltração na exportação envolve a cooptação de funcionários ou gestores, que repassam informações e facilitam o tráfico de alguma maneira.
"É possível que, daqui para frente, a gente encontre casos de uma infiltração ainda mais intensa, com o PCC adquirindo ou investindo em terminais portuários, ou não necessariamente em terminais, mas em empresas de logística e transportadoras que fazem a estufagem e o transporte de containers entre esses recintos e o porto", diz.
Porto de Paranaguá, Paraná: as investigações apontam que o PCC chegou a comprar um terminal no Porto de Paranaguá (PR) para receber os produtos químicos importados para adulterar os combustíveis (Paulo Fridman/Corbis/Getty Images)
Ele cita como exemplo a suspeita de que a 'ndrangheta, uma das principais máfias italianas, tenha investido na construção do Porto de Gioia Tauro, um dos principais portos da Itália para escoar drogas.
"É difícil dizer se estamos próximos dessa situação aqui no Brasil, embora o debate sobre o PCC como uma máfia tenha ganhado força nos últimos anos. Mas o fato é que precisamos abrir os olhos e ficar mais atentos a modalidades mais complexas de infiltração do PCC na economia legal, especialmente na logística portuária", afirma Patriarca.
Neste contexto, operações como a Carbono Oculto tendem a se tornar cada vez mais comuns — e surpreender cada vez menos.