Filho de Erico Verissimo, autor de O Tempo e o Vento, herdou do pai o gosto pela escrita despretensiosa (Editora Objetiva/Divulgação)
Colaboradora na Exame
Publicado em 30 de agosto de 2025 às 11h33.
Mestre do humor inteligente, da crônica cotidiana e das tiras que disfarçavam filosofia e crítica política em piadas rápidas, o escritor Luis Fernando Verissimo consolidou uma obra que atravessou gerações e vendeu mais de 5,6 milhões de exemplares. O gaúcho morreu aos 88 anos, na madrugada deste sábado, 30, em Porto Alegre.
Cronista, escritor, cartunista, Verissimo era conhecido por sua discrição e pelas respostas concisas em entrevistas. “Não sou eu que falo pouco, os outros é que falam muito”, brincou certa vez.
Se era interpretado como tímido ao falar, era na escrita que encontrava sua forma de se expressar. "Essa é uma das vantagens da crônica. A gente pode ser o que quiser escrevendo uma crônica", explicou o autor. Luis Fernando foi o criador de personagens icônicos, como o analista de Bagé, Ed Mort, a velhinha de Taubaté e as Cobras.
Filho de Erico Verissimo, autor de O Tempo e o Vento, herdou do pai o gosto pela escrita despretensiosa. Nascido em Porto Alegre em 1936, passou parte da infância nos Estados Unidos, onde Erico lecionava literatura brasileira. Foi lá que o jovem Luis Fernando descobriu o jazz e o saxofone, paixões que o acompanhariam pela vida.
"O pai foi um dos primeiros escritores brasileiros a escrever de uma maneira mais informal. E eu acho que herdei um pouco isso", disse o cronista sobre o pai.
De volta ao Brasil, começou como revisor no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, em 1966. No Rio de Janeiro, atuou como tradutor. Em 1973, publicou seu primeiro livro, O Popular. Depois, entre 1975 e 1999, Verissimo marcou presença diária nas páginas do jornal gaúcho. Foi nesse período, ainda sob a censura da ditadura, que nasceu As Cobras, os personagens mais célebres de suas tirinhas. Duas serpentes discutiam desde a infinitude do universo até as pequenas ironias da vida política brasileira, mostrando que, muitas vezes, os quadrinhos diziam o que os textos não podiam.
"As Cobras são o produto da combinação do meu gosto por quadrinhos com minhas limitações como desenhista. Cobra é muito fácil de fazer, só tem pescoço", brincou o autor na antologia definitiva publicada pela editora Companhia das Letras em 2010.
Ao longo de mais de 20 anos de carreira, Verissimo somou mais de 70 títulos, entre romances, contos, crônicas e coletâneas. Alguns de seus principais sucessos são "Comédias para se ler na escola" e "As mentiras que os homens contam". Sua obra também chegou à televisão: Comédias da Vida Privada (1994) virou série da Globo, e Verissimo integrou a equipe de roteiristas da icônica TV Pirata no fim dos anos 1980. Também foi colunista no O Estado de S.Paulo e O Globo.
"Um desafio porque o humor de televisão, ao contrário do que possa parecer, é mais difícil de fazer que o humor impresso, o humor gráfico, vamos dizer assim (...) Não tenho uma vocação humorística, mas consigo eventualmente produzir humor. Mas é uma coisa mais deliberada, mais pensada, do que espontânea, no meu caso", disse em entrevista na época.
Além da literatura, Luis Fernando Verissimo tinha paixões que alimentavam sua obra. A música, em especial o jazz, era uma delas. Saxofonista amador e colecionador de discos, gostava de ouvir música sem distrações. “Música é sentar e ouvir”, dizia.
Outra de suas grandes paixões era o futebol, mais especificamente o Internacional, seu time do coração. Ele acompanhou de perto a história do clube, o que rendeu o livro Internacional, Autobiografia de uma Paixão. Verissimo vibrou com o tricampeonato invicto de 1979 e se emocionou com o Mundial de Clubes de 2006, escrevendo a célebre crônica “Não me acordem”.
“Vejo como o triunfo do Gabiru (autor do gol), o grande herói que era criticado. Algo meio melodramático. Foi um momento de sonho. Antes do jogo, o sentimento era: ‘Se perder de pouco, está bom’”, recordava.