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Setor privado é convocado como motor de implementação climática na COP30

Com apenas 20% das NDCs entregues, texto oficial apela à mobilização empresarial enquanto persistem obstáculos como exclusão de delegações e lentidão nas confirmações

Ana Toni e André Corrêa do Lago, respectivamente CEO e Presidente da COP30, durante coletiva para apresentação da carta da Presidência em março deste ano. (Isabela Castilho/ COP30 Amazônia/Flickr)

Ana Toni e André Corrêa do Lago, respectivamente CEO e Presidente da COP30, durante coletiva para apresentação da carta da Presidência em março deste ano. (Isabela Castilho/ COP30 Amazônia/Flickr)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 29 de agosto de 2025 às 09h01.

Última atualização em 29 de agosto de 2025 às 10h07.

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A presidência brasileira da COP30 fez um apelo direto e urgente ao setor privado em sua sétima carta oficial, divulgada nesta sexta-feira, 29.

No documento, que enfatiza a transição climática como "uma das maiores fontes de inovação e crescimento da história", convoca empresas a transformarem compromissos em "realidade exponencial".

O chamado ocorre em um contexto de lacunas críticas. A pouco mais de dois meses da conferência em Belém, a maioria das nações ainda não submeteu suas novas metas climáticas (NDCs) - e o processo que antecede a definição de metas demanda participação fundamental da indústria.

O novo texto posiciona Belém como "o maior mercado mundial de soluções climáticas transformadoras" e insta as empresas a atuarem como "co-arquitetas desta transformação". E chama a atenção para a urgência do momento:

 "Construído sobre três décadas de cooperação global, este momento sinaliza não apenas um marco diplomático, mas uma oportunidade de negócio catalítica"

Para o embaixador André Corrêa do Lago, o setor privado já acelerou a transição de muitas maneiras significativas. "Agora, precisa dar um passo à frente - não para trás - e ampliar seu engajamento para tornar essa transformação uma realidade exponencial", afirmou na carta que assina.

O setor privado na arquitetura da COP

A nova comunicação reforça uma aparente mudança estrutural no desenho das conferências climáticas, na edição sediada pelo Brasil organizadas em quatro eixos: negociação multilateral, cúpula de líderes, agenda de ação e a inovadora "mobilização global".

Essa arquitetura reconhece explicitamente que o evento transcendeu os espaços até então formais de negociação.

Em entrevista à EXAME, a embaixadora Liliam Chagas, negociadora-chefe da COP30 e principal negociadora do país desde a COP28, destacou o papel decisivo da indústria: "Participar dessas discussões é influenciar os parâmetros da nova economia verde e o ritmo dessa transição. Seja ela acelerada, gradual ou organizada".

Presidente do conselho do Instituto Arapyaú e referência no diálogo empresarial-climático, Roberto Waack, lembra que desde a COP21, de Paris em 2015, debates regulatórios domésticos - como a revisão do Código Florestal - passaram a evidenciar que a agenda climática traria impactos econômicos tangíveis para empresas.

Para o executivo, Paris representou a transição de uma postura contemplativa para um engajamento ativo. "Foi quando o sinal superou definitivamente o ruído".

Esse despertar, então, evoluiu para uma compreensão estratégica mais sofisticada. "Caiu a ficha para o setor empresarial brasileiro, de que o Brasil tem vantagens competitivas relevantes no mundo, ainda não totalmente evidenciadas", explica.  "Não dá para simplesmente ignorar que esse é um jogo que afeta a estratégia e o modelo de negócio".

A análise mostra de Paris para Belém, mudou definitivamente o estágio de maturidade de engajamento: de participante na formulação, o setor privado é agora formalmente convocado a ser o motor da implementação, estimulado pela convicção de que a liderança climática é, também, uma poderosa vantagem econômica.

E a sétima carta da presidência parece simbolizar a culminância desse processo.

Obstáculos persistentes a dois meses de Belém

Como têm feito habitualmente, na quinta-feira, 28, durante a Rio Climate Week, Corrêa do Lago e Ana Toni, CEO da COP30, reforçaram mais uma vez as mensagem ao empresariado, endereçando os obstáculos logísticos que persistem na organização da cúpula no Pará.

Toni afirmou que houve "progresso substancial" na questão de hospedagem, com mais nações confirmando acomodações após a ativação de força-tarefa governamental. Até sexta-feira, 22, somente 47 países - dos 198 signatários da ONU - tinham confirmado presença em Belém.

"Os países estão tendo suas demandas atendidas de forma mais eficiente", declarou durante painel no CCBB Rio. "Precisamos agora concentrar energias nos temas substantivos que definirão o sucesso da conferência".

A evolução, contudo, convive com novos desafios. Pela manhã de quinta-feira, um dos navios contratados como alternativa para o gargalo de hospedagens, o Costa Diadema, de operadora norte-americana, vetou delegações de 20 países sem relações diplomáticas com os EUA, incluindo Cuba, Irã e Coreia do Norte.

Lacuna ambicional e pressão implementadora

Cerca de 80% dos signatários do Acordo de Paris, incluindo grandes economias, ainda não apresentaram suas NDCs revisadas para 2035. 

O atraso de mais de 150 países expõe um hiato entre a retórica e a ação estatal, jogando luz ainda sobre uma complexa realidade operacional: os mecanismos multilaterais tem sido lentos para a urgência da crise.

Neste cenário, a pressão por resultados também redireciona naturalmente um foco maior para quem detém capital, capacidade de inovação e agilidade executiva. Ou seja, o setor privado.

Contudo, essa legitimação da indústria como "co-arquiteta" da transformação, em um contexto onde os Estados falham em apresentar suas contribuições nacionais, levanta questões profundas sobre o risco de se transferir a responsabilidade climática de atores obrigados por tratados - os governos - para entidades cujo mandato primário é o lucro.

Ainda que pragmaticamente orientado pela urgência de escala e financiamento, este movimento pode inadvertidamente minar o princípio multilateral de responsabilidades comuns porém diferenciadas, corroendo a autoridade do processo intergovernamental.

A visão da COP30 como o "maior mercado mundial de soluções climáticas", embora poderosa para engajar o capital, não está imune ao risco de captura corporativa.

Há um temor consistente entre observadores de que setores com interesses conflitantes, especialmente os de combustíveis fósseis e agropecuária intensiva, utilizem a plataforma para promover falsas soluções ou compromissos voluntários pouco ambiciosos, transformando um espaço de prestação de contas em uma vitrine de greenwashing.

A menção à necessidade de um "monitoramento que incentive a ação", feita pelo embaixador durante a coletiva realizada na noite de quinta-feira para explicar a sétima carta, revela a consciência desta armadilha.

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Porém, a estrutura proposta, desvinculada das negociações formais, ainda carece de mecanismos robustos e independentes de verificação que garantam transparência e previnam a maquiagem verde. Algo que nem Corrêa do Lago, nem Toni, conseguiram responder de forma objetiva na conversa com jornalistas.

Além disso, a ênfase na lógica de mercado e na autonomia do setor privado para "identificar oportunidades no que já foi aprovado", um dos caminhos apontados pelos porta-vozes sobre formas de controle e monitoramento, pode aprofundar desigualdades geopolíticas.

Empresas de economias avançadas tendem a dominar o cenário de "soluções", potencialmente marginalizando vozes de países em desenvolvimento e comunidades locais, cujas soluções nem sempre são comercializáveis ou escaláveis.

O desafio, portanto, não é apenas mobilizar o capital privado, mas fazê-lo de forma a reforçar - e não substituir - a ambição estatal, assegurando que a governança climática permaneça inclusiva, justa e orientada pelo interesse público global, e não pelos acionistas.

Estratégia comunicativa: da conceituação à convocação

A sequência de sete cartas da presidência revela uma estratégia comunicativa graduada. A evolução temática, do "mutirão global" inicial (1ª carta) à estrutura de governança (2ª), passando pela justiça social (6ª) até a economia real (7ª), reflete uma construção narrativa meticulosa.

Sobre a participação empresarial, André Corrêa do Lago já havia celebrado publicamente o modelo durante reunião do Brics, em junho, no Brasil: "A liderança da indústria brasileira está sendo abraçada por empresários globalmente".

Ao articular esse chamado final, a presidência não apenas reconhece a reconfiguração do ecossistema climático, mas também sinaliza que, face às insuficiências governamentais, a capacidade implementadora residirá cada vez mais na esfera privada.

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